<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:geo="http://www.w3.org/2003/01/geo/wgs84_pos#" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"
	>

<channel>
	<title>BALAIO DE GATO</title>
	<atom:link href="http://vivarelli.wordpress.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://vivarelli.wordpress.com</link>
	<description>Um autor à procura de um editor</description>
	<lastBuildDate>Mon, 04 Jan 2010 15:13:54 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-br</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.com/</generator>
<cloud domain='vivarelli.wordpress.com' port='80' path='/?rsscloud=notify' registerProcedure='' protocol='http-post' />
<image>
		<url>http://s2.wp.com/i/buttonw-com.png</url>
		<title>BALAIO DE GATO</title>
		<link>http://vivarelli.wordpress.com</link>
	</image>
	<atom:link rel="search" type="application/opensearchdescription+xml" href="http://vivarelli.wordpress.com/osd.xml" title="BALAIO DE GATO" />
	<atom:link rel='hub' href='http://vivarelli.wordpress.com/?pushpress=hub'/>
		<item>
		<title>ALFREDO FROG E A INVASÃO DOS SAPOS CHIFRUDOS</title>
		<link>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/30/um-epico-infanto-juvenil/</link>
		<comments>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/30/um-epico-infanto-juvenil/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 14:56:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>vivarelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[contaminação das águas]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto infantil]]></category>
		<category><![CDATA[deformidades de anfíbios]]></category>
		<category><![CDATA[desenho animado]]></category>
		<category><![CDATA[ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[literatura infanto juvenil]]></category>
		<category><![CDATA[mal formação sapos]]></category>
		<category><![CDATA[poluição ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[preservação da natureza]]></category>
		<category><![CDATA[crítica social]]></category>
		<category><![CDATA[literatura infanto juvenil-ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<category><![CDATA[planeta água]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://vivarelli.wordpress.com/?p=18</guid>
		<description><![CDATA[Um épico infanto juvenil , no qual um tema ecológico atual- a preservação ambiental - mistura-se com outro não menos polêmico - o combate à corrupção de valores éticos  e a opressão dos mais fracos . <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=18&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1><em>ALFREDO FROG E A </em><em>   INVASÃO </em><em>DOS </em><em> SAPOS </em><em>CHIFRUDOS</em></h1>
<p>Um épico infanto-juvenil  no qual  um tema  ecológico atual -  a luta contra a poluição  das águas   - mistura-se com outro não menos excitante   - a  corrupção de valores éticos  e a opressão dos mais fracos  </p>
<p>I –  O  REI BATRÁQUIO  E O REINO  DOS SAPOS DE PAPO AMARELO </p>
<p>Era uma vez um reino &#8211; o Reino dos Sapos de Papo Amarelo-  governado por um maldoso  soberano, o  Rei Batráquio : ele  o transformara em um paraíso para seus amigos , mas  em um purgatório para a maioria.  </p>
<p>Esse monarca, um velho saparrão  muito gordo e vaidoso,  gostava de vestir longas capas cravejadas de cristais e usava  uma abundante peruca branca <em>– &#8230;  para  realçar-me a autoridade</em> – explicava ele  . No entanto, as linguarudas da corte  garantiam que o soberano  passara a usá-la depois que apareceram-lhe  duas grandes ¨ berrugas¨  em sua  cabeça e que  impediam encaixar de modo seguro a vistosa coroa .</p>
<p>Como ocorre com todo governante ilegítimo, qualquer acontecimento minimamente adverso era por ele  sentido, imediatamente , como uma ameaça potencial  ao seu  despotismo ; nesse caso,  o supersticioso temia que a  precária  fixação da peça poderia projetar  uma idéia  de instabilidade do seu comando – conceito  delirante  que sacara de seu livro de cabeceira * . </p>
<p>–      Se ela me cai , caio junto – resumia o esquizofrênico ; e daí, para a idéia  cabeluda, foi meio pulo  .</p>
<p>Mas é claro  que  não era com grampos de metal presos à  cabeleira postiça   que ele se  mantinha  no poder, mas com aqueles  muito familiares a nós, humanos : os  eficientes grampos  da corrupção.</p>
<p>Batráquio era  capaz de qualquer arbitrariedade para  atender aos caprichos da nobreza poderosa,dos políticos , ou dos ricos comerciantes – e isso com a ajuda desonesta da maior parte do parlamento (o governo desse reino era um arremedo de monarquia parlamentarista)</p>
<p>Auxiliava-o, de perto, seu Primeiro Ministro, o esquálido Barão de Champignon – mais conhecido  entre o povão  como  Sorvete de Pimenta. De fato, nesse reino ,  nenhuma trapaça acontecia sem que se identificasse a intervenção, mais ou menos aparente, deste friíssimo e briguento anfíbio.                </p>
<p>Deixe-me mostrar como se dava um típico dia legislativo, ou, melhor dizendo, uma noite típica, pois sapos dormem de dia e são muito ativos à noite:  invariavelmente, ela iniciava-se  com a proposição de novos impostos;  as sessões aconteciam em meio à fumaceira de narguilés fedorentos,  e isso porque  hábitos orientais exóticos haviam se tornado a última moda entre os políticos e nobres.</p>
<p>-         ASDI (Assunto do Dia), senhor Barão? – assim perguntava o preguiçoso Batráquio, que falava desse modo até para economizar palavras.    </p>
<p>-         Sim , Majestade : temos aqui a proposta do Conde Funghi Secchi: devemos aumentar as taxas sobre o uso dos chuveiros públicos, a fim de criarmos uma receita para a sua manutenção ; os senhores deputados sabem : há muito vandalismo entre a ralé .Também precisaremos de uma verba substancial para a construção de novos. (o parlamento se agitava com manifestações a favor e, poucos, contra).</p>
<p>        * Marqueting Pessoal para Tiranos e Corruptos em Geral – Capítulo 1, Pág.1:  Porque Até Um  Velhaco  Tem Uma Imagem  a Zelar &#8211; Série Auto Ajuda; Crapaud, M. Editora  Sapo Feliz</p>
<p>-     A palavra, Majestade, peço a palavra!- os raquíticos sapinhos, representantes dos pobres, tinham que gritar muito para serem atendidos.</p>
<p>-         Simmmm&#8230;! &#8211; Batráquio nunca deixava de conceder o aparte, ao menos para parecer um governante democrático (*) .</p>
<p>-    Majestade não se trata de vandalismo.  As empresas contratadas usam tubos de 3<sup>ª</sup> e as bombas são de péssima qualidade. Além disso, essa medida&#8230; humm,  humm -( os dois gordões que o ladeavam usavam do mesmo princípio que os air bags dos carros  modernos:  inflavam os  proeminentes papos,  imobilizando-os , quase, asfixando -os ; mas, se os protestantes  estivessem fora do alcance dos papudos, usavam de outra estratégia: cobriam-nos com uma baforada de fumaça sufocante, o que provocava uma tosse horrível, emudecendo-os .</p>
<p>-     Parece que os nobres deputados perderam o fôlego! &#8211; o Bobo da Corte era um habitual gozador da infeliz minoria &#8211; e os outros caçoavam coaxando.</p>
<p>-         ASRE! (Aprovado Sem Restrições) – assim sentenciava o Rei quando o que estava em jogo era engordar os cofres do palácio</p>
<p>-         PROAS (Próximo Assunto), Senhor Barão – <em>assim seguia o trem da alegria, sempre de n</em><em>oite, nunca de dia! .  </em></p>
<p>-          Pois sim: A construção da Grande Pirâmide Energética. Ela permitirá uma eficiente   captação cósmica “radioestésica” e envolverá uma enorme soma de recursos; a bancada    governista defende que, como todos serão beneficiados com tal empreendimento, as        famílias mais numerosas deverão contribuir mais que as outras! ( o Frankstein  dava a deixa  para  os colegas vampiros atacarem as jugulares econômicas do proletariado   )</p>
<p>-         Apoiado! A Lei da Responsabilidade Fiscal   exige seja criada uma nova contribuição social. Ah&#8230;, que tal uma CPMP &#8211; Contribuição Provisória para a Montagem da Pirâmide? – o puxa- saco mor, conde Shiitake,  era um dos que mais excitava o apurado dom de taxação do parlamento.</p>
<p>-         ACRE! (Aprovado Com Restrições) &#8211; dessa maneira o Rei da Mamata preparava a estocada final com  o seu <em>florete  tributário</em>  .   </p>
<p>-         Mas qual seria a restrição, Majestade?- Champignon era quem pintava o alvo bem no peito da classe operária.   </p>
<p>-         Tem de ser CPMP –PP &#8211; Contribuição Provisória para a Montagem da Pirâmide – Potencialmente Prorrogável  – Touché!</p>
<p>-         Arre! – exclamavam os encolerizados representantes dos humildes trabalhadores, antevendo que, com eles, ficaria o maior peso dos impostos e que, uma vez criados, eles não terminariam jamais!      </p>
<p>Com um soberano e um parlamento desses, os ricos garantiam  privilégios e conseguiam controlar a maioria para trabalharem em favor de seus interesses mesquinhos.</p>
<p>Por outro lado, sua esposa, a Rainha Batráquia – uma sapa toda deformada por repetidas cirurgias estéticas – e sua filha, a princesa Papudinha representavam o que havia de mais antipático e preconceituoso neste reino (odiavam a plebe!); elas tornaram-se <em>experts</em> em dirigir todas as iniciativas do monarca e dos deputados em proveito próprio, e, por tal razão, o povão alcunhou-as de As Megeras. </p>
<p>*- Marketing Pessoal  para Tiranos e Corruptos em Geral – Crapaud, M.; Capítulo 100, Pág 555: Democracia é Coisa do Demo ! &#8211; Serie Auto Ajuda &#8211; Editora Sapo  Feliz</p>
<p><strong>II    A GEOGRAFIA DA POBREZA</strong></p>
<p>É preciso esclarecer que a razão fundamental das diferenças das condições de vida, nessa sociedade, estava na maior ou menor facilidade em conseguir-se água, o que, por sua vez,refletia a maneira injusta como era administrado. Além disso, os governantes sabiam muito bem como aproveitar-se da topografia do lugar para perpetuar as desigualdades.</p>
<p>A cidade lacustre encontrava-se em uma posição muito especial de um extenso monte pedregoso, de  onde um riacho, nascido lá no alto, descia interrompido por muitas cachoeiras: ela ficava, mais ou menos, a meia altura entre seu cume e sua base, em um planalto entre duas quedas d´água &#8211; a de cima, ao norte, que alimentava o tranqüilo lago, e a de baixo, ao sul, que mantinha constante o seu nível por um equilibrado deságüe. As cachoeiras, portanto, estabeleciam, com exatidão, o início e o fim dessa nação anfíbia.    </p>
<p>Na outra direção, a leste, havia um alto paredão de pedras ;desde o início, foi defronte a ele que a corte foi se instalando e , ao mesmo tempo, ocupando todas as margens do principal reservatório de água. Com o paredão às costas, não existia o perigo de emboscadas de retaguarda e, além disso, o seu solo era muito fértil; era para esse lado que os ventos levavam o refrescante nevoeiro produzido pela cachoeira de cima, o que o fazia ser rico em plantas diversas e cogumelos gigantes.</p>
<p>Na região oeste, que recebia pouca névoa, o terreno era arenoso (não retinha água), com pouca vegetação e terminava em um profundo precipício.</p>
<p>A lagoa ficava mais perto do paredão que do despenhadeiro, de modo que, para aqueles que habitavam no extremo &#8211; oeste, chegar até ela era praticamente impossível; os carentes ficavam, portanto, neste sertão, espremidos entre o abismo e os bairros da elite, os quais, aliás,  estavam muito bem guardados por soldados grandalhões. Como diziam os nobres, quem estivesse descontente que pulasse a cachoeira e se aventurasse no riacho efluente , onde viviam   perigosas serpentes  ; ou, então, que saltasse para o profundo precipício!</p>
<p>A maior parte dos recursos hídricos ficava sob o controle de poucos e, desse modo, os sapos, em geral, não tinham como construir seus próprios criadouros de vermes, minhocas,  libélulas e, de modo particular, de moscas que, na sua dieta, são como as galinhas para nós, humanos &#8211; um alimento barato e muito nutritivo (além de movimentar um intenso comércio).</p>
<p>Menos água significava menos comida e também menos negócios e maior empobrecimen- to.</p>
<p>A secura, não raramente, matava de desidratação .Na verdade, a seca  fora usada, pela nobreza, como um eficiente meio de controle dos nascimentos de sapinhos : menos <em>berçários – aqüíferos</em>, menos girinos.  Não que este reino fosse superpovoado! De modo algum! Mas os ricos, que não eram de ter muitos filhos, não queriam que os sapos <em>comuns</em> fossem em número muito maior que eles (seria mais difícil dominá-los).</p>
<p>Como já comentei lá atrás, a irrigação para a periferia se dava por meio de tubulações feitas  de bambu de péssima qualidade; elas alimentavam os chuveiros públicos, os quais eram tão reduzidos em número, quanto defeituosos. Esses chuveiros funcionavam apenas como um quebra-galho para contornar as rasas poças  disponíveis e que seriam os locais públicos ideais para todos manterem sua umidade.</p>
<p>O próprio cidadão, com as patas inferiores, abaixava e levantava, repetidamente ,  a alavanca das bombas, mas era comum quebrarem-na ao tentarem uma mixuruca chuveirada; isso enfurecia o indivíduo  que, muitas vezes, terminava por arrebentá-la num acesso de raiva não controlado.</p>
<p>Precisava-se de tanta energia para bombear-se que ,até,  surgiu entre eles a figura dos Bombeiros &#8211;  indivíduos musculosos que faziam uns trocados acionando aquele estorvo para os mais fraquinhos.</p>
<p>Se o lado oeste apresentava-se feio e mal iluminado ,  pois todos os dias algum esfomeado resolvia dar cabo do vaga lume de algum poste de iluminação, o lado leste, ao contrário, era todo luz e cores:  aí o castelo real dominava a paisagem, cercado pelos vistosos palacetes dos membros da corte e dos burgueses- todos com paredes  incrustadas por cristais coloridos os mais diferentes . Chamava a atenção , no entanto, que, em comum, os prédios apresentavam baixos pés – direito , pois, de um modo geral, esses sedentários  haviam perdido a característica de serem bons saltadores ; até  consideravam seu modo natural de mover-se uma característica fora de moda ! Pulavam muito pouco e, para distâncias maiores,  deslocavam- se em  carruagens puxadas por  sapos &#8211; motoristas . Daí compreende-se porque  ocorria tanta amputação de patas, cortadas pelas rodas daqueles veículos, cada vez mais presentes nas ruas  e estradas .</p>
<p>Os desfavorecidos, além do racionamento, sofriam, também, os efeitos da poluição produzida não só pela elite inconsciente, como por eles mesmos.</p>
<p>Como explicaremos mais tarde, era pela rede de esgoto dos salões de beleza chiques que saia uma combinação de dezenas de poluentes &#8211; uma mistura dos mais diferentes cosméticos, tinturas, e cremes. Mas, também, era verdade que os sofridos sapos sapadores de solos rochosos &#8211;  que procuravam argilas especiais, pedras diversas , calcário, minérios de ferro, cobre, etc.-  e outros humildes trabalhadores &#8211; envolvidos com o processamento da matéria prima para cosméticos-  sujavam o ambiente sem qualquer preocupação. E nesse aspecto, o principal protagonista dessa história, Dr. Alfredo,  sempre procurara conscientiza-los do mal que estariam fazendo a si mesmos.</p>
<p>Bem, é chegada a hora de apresentar esse personagem central  .  </p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>III &#8211; DR ALFREDO FROG</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Nosso herói representava o oposto de tudo o que a classe A admirava e vivia na zona árida e miserável.   Dr. Alfredo Frog era um  mendigo que vivia de esmolas , sujinho, pele muito seca, um adulto de meia idade e que usava muletas depois que uma  perna  fora-lhe amputada;  estava , quase todo o tempo , embriagado – viciado que era em Licor de Jenipapo &#8211; e essa foi , aliás , a razão do seu acidente:  largado à beira da calçada , depois de uma de suas carraspanas , ficou com o membro inferior esquerdo temerariamente  esticado além do meio fio e, de repente, zaptt &#8230;   a roda de uma veloz carruagem  terminou por  arrancar um pedaço de seu corpo.   </p>
<p>Deve-se lembrar que, nesta comunidade sapos pernetas eram ridicularizados por todos: ao tentarem um pulo  um pouco mais alto , criava-se um<em> momentum</em> e, assim, giravam no ar caindo de ponta cabeça, pois a pata ausente não contrabalançava o impulso da boa.  Por isso, estes infelizes se arrastavam ao invés de saltarem, sendo maldosamente, chamados <em>sobras</em> &#8211; uma mistura de sapo com cobra. Dependiam  dos outros o tempo todo e, por esta razão, era comum morrerem sós e ressequidos.</p>
<p>Esse pobre aleijado representava, portanto, mais uma <em>sobra</em> desta comunidade inclemente.</p>
<p>Apesar disso, era muito querido pelos poucos que se lembravam do que ele havia sido nopassado e que entendiam as razões de ter chegado a tal estado . Pertencera a uma família muito distinta, de origem anglo-saxônica, sapo de boa cepa, cuja ascendência remontava a anfíbios que lutaram na guerra civil americana contra os sulistas escravocratas; químico – farmacêutico, doutorado, dono de um pequeno estabelecimento, fabricara e vendera somente remédios e sempre se recusara a manipular qualquer fórmula cosmética.</p>
<p>Havia, no entanto, uma procura generalizada pela pomada foto-protetora que inventara(contra raios ultravioletas), pois todos reconheciam – na como, de fato,  muito benéfica. Esse medicamento estava indicado, de modo especial, para operários que trabalhavam sob o sol, como por exemplo, lixeiros ou policiais diurnos; mas os boas-vidas ricaços, que só iam para a cama depois do meio dia, saídos de alguma boate, também procuravam  com avidez a Pomada do Dr. Frog. </p>
<p>Sempre tivera compaixão pelos doentes e, usualmente, dava um jeito de passar pelo ladooeste levando cremes umedecedores para aqueles com intensa sequidão. E foi nessespasseios que ele descobriu a vida sofrida de seus concidadãos .</p>
<p>Por vários anos, escrevera uma coluna no Diário Imperial , no início, tratando de assuntos técnicos, mas, com o tempo, passou a abordar temas sociais. Transformou-se em um duro crítico do SUSS – o  Sistema Único de Saúde da Saparia &#8211; que funcionava  de modo muito precário   e em total desacordo com as recomendações da Organização Pan &#8211; Americana de Saúde , uma organização  tão comprometida com a saúde dos sapos que  até sua sigla  OPAS  dava a  demonstrar , de imediato, essa sua característica fundamental .</p>
<p>O  atendimento aos necessitados ocorria em prédios muito compridos, onde enfermeiras e médicos de má vontade, aguardavam, em suas salas, os pacientes trazidos por esteiras rolantes: o tempo da consulta era definido não pela complexidade dos problemas , mas pela velocidade da tal esteira, que acabava por retirar os doentes da sala da mesma maneira que os introduzia. Não é preciso explicar o que acontecia naqueles dias em que os médicos estavam mais impacientes  que o usual: a velocidade  era, simplesmente, aumentada!</p>
<p>Muito observador Alfredo,também,  passara a escrever artigos sobre o excessivo número de defeitos congênitos que, nos últimos anos , afligiam as crianças (sapinhos com falta de uma perna, com duas cabeças,  ou com três patas). Ele defendia que, de algum modo, isso deveria ter alguma relação com a poluição ambiental. No princípio, pensara na camada de ozônio, mas, depois, chegou à conclusão de que a causa poderia estar na contaminação das águas.</p>
<p>Descobriu, usando folhas de repolho roxo (as quais mudam sua cor para vermelho ou para azul, segundo o grau de acidez do líquido onde é mergulhado),  que, de vez em quando, em alguns berçários, a água se encontrava tão azeda como um limão e, noutras vezes,  o posto, alcalina ,com gosto de sabão .  </p>
<p>Começou, também, a desconfiar que o desaparecimento de girinos e sapinhos bebês –levados pela correnteza por uma súbita e inexplicável  incapacidade para nadarem -poderia decorrer da  infiltração das águas  por um produto cosmético conhecido como  Botulina, que  paralisava os  tensos músculos responsáveis por rugas  faciais . Quando resolveu escrever sobre esse assunto, passou a atacar o criador da droga, Dr. Sapan Hussein – o mesmo que introduzira  o hábito do fumo  à moda de seus antigos ancestrais árabes;  de um modo indireto, também passou a atacar a Rainha Batráquia – a dona da única fábrica desta substância.    Certo dia, no auge de sua irritação, a família real, Hussein,  Barão de Champignon e outros da camarilha decidiram  montar um complô para desmoralizar o incômodo  jornalista. <em>Plantaram</em> uma linda e inteligente sapinha em sua vida, Isabela, por quem ele acabou se apaixonando. Ela deveria descobrir seus pontos fracos e, por causa disso, com ele   manteve um prolongado namoro .</p>
<p>Foi a época mais feliz de sua vida. Levava-a restaurantes naturais,  salões de dança, óperas, peças de teatro. <em>Bela</em> , como ela a chamava , aproveitou-se dessa intimidade e, afinal, conseguiu adentrar em seu laboratório: foi quando  pôde contaminar todo um grande lote da pomada foto-protetora com o terrível vírus da verruga de sapos.  Depois disso, sem qualquer explicação evidente,  escafedeu-se .  No início, Alfredo não entendeu o porquê do sumiço, mas, depois de algum tempo, descobriu pistas (recusadas pelos tribunais) que indicavam ter sido Isabela a responsável pela ¨sapotagem¨.</p>
<p>Teve que enfrentar a depredação de seu estabelecimento por agitadores  bem pagos , manchetes escandalosas e dezenas de processos judiciais que o arruinaram com tantas indenizações – tudo pré-arranjado pelos conspiradores . O sofrimento psicológico, a pobreza e, de modo relevante , a desilusão amorosa levaram-no à mendicância e à bebedeira.</p>
<p>Para piorar sua situação, o vício foi sendo , dia após dia,  estimulado por muitos e isso por uma estranha razão : alcoolizado, a partir de certo momento, ele mudava  sua personalidade e , delirando, assumia o comportamento de um rei abobado, o que divertia a todos os que assistiam esse quadro deplorável.</p>
<p>Acontecia assim: de repente ,  seu olho direito ficava estrábico e ele, de pé, equilibrando-se em sua muleta  começava a proclamar-se:</p>
<p>-         Eu sou o Rei Alfredo. O que quereis que eu vos faça? – iniciava-se, dessa maneira, o ridículo quadro de alucinação.</p>
<p>Então, os que estavam pelas ruas começavam a caçoar e a provocá-lo com pedidos absurdos ou gracejos humilhantes.</p>
<p>-         Hei Majestade! Queremos que ¨Vossa Jenipapança¨   desvie  a cachoeira de cima para o bairro;  aí, não vamos precisar mais daqueles chuveiros  estragados!</p>
<p>Ou então :</p>
<p>-     Ó, seu rei, converse com o Rei dos Céus para ele mudar a direção do vento ¨prô¨ nosso  lado: ¨nóis¨ é que  precisamos de névoa e não aqueles ricaços!  </p>
<p>Ou ainda:</p>
<p>-         Oh , King  Frog , where is the fog ? ( quem  lançou esse mote foi um aristocrata  descendente de sapos confederados  norte americanos , do estado do  Alabama,   e ele  colou entre  a maioria ignorante, mesmo sem  compreenderem   bem o seu  significado) ; Lord Ronald era  dono de um Fast Food, que vendia velocíssimas e gordas  libélulas, e que  não gostava , nem um pouco,  de Alfredo ) .</p>
<p>Essas eram algumas das provocações ao pobre bêbado.</p>
<p>Mas a coisa não terminava aí; quando alguém o fazia a tomar alguns tragos a mais, ele mudava abruptamente  seu papel: passava a apresentar estrabismo do outro olho, soltava a muleta, e começava a balançar o corpo e a cantar uma rumba bastante alegre, redemoinhando as mãos juntas, ora de um lado da cabeça, ora do outro :</p>
<p>-         EU SOU UM SAPO, CHICA BUMBA CHICA-BUMBA!</p>
<p>-         MUITO FELIZ, OH CHICA BUMBA CHICA-BUMBA!</p>
<p>-         COM ÁGUA LIMPA, FICO MUITO MAIS CONTENTE!</p>
<p>-         COM ÁGUA SUJA, FICO MUITO MAIS DOENTE!</p>
<p>O pessoal quase estourava os papos de tanto rir. E, como sempre acontecia, depois de duas ou três repetições , o ex &#8211; respeitado farmacêutico desmaiava, caindo inerte para traz (quando, para piorar,  pequenos ladrõezinhos aproveitavam-se para roubar-lhe as esmolas!).</p>
<p>Ninguém sabia dizer, ao certo, a razão desse comportamento estranho, que, na verdade tinha a ver com Isabela: ele ficara muito impressionado com o personagem de uma peça que  com ela assistira  no último dia em que a viu (uma adaptação anfíbia do Rei Lear, de Shakespeare). E quanto ao Chica-Bumba, foi uma canção de sucesso (de uma tal Sapa Miranda),que ele dançou com sua amada em uma das memoráveis noites de romance.</p>
<p>Esse  jeito estrambótico havia se tornado tão conhecido, que sua fama chegara até à corte, onde só se matraqueava  sobre um adoidado muito divertido ,  identificado, apenas, como Alfredo Chica Bumba.</p>
<p>Um dia, em troca de alguns goles , ele foi levado ao palácio para um deprimente  espetáculo diante de nobres ansiosos por baixarias. Lá, ninguém, sequer, desconfiou de sua verdadeira identidade, tal o estado físico e mental em que se encontrava. E quando, afinal,  perdera a graça, foi  enxotado para a sarjeta.</p>
<p>Na realidade , não só Dr. Frog  Bumba  estava física e mentalmente  doente.  Era toda a saparia desse reino, pois mesmo os mais carentes tinham, lá,  as suas mazelas.</p>
<p>Mas entendamos como se dava tudo isso.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong><strong>IV- ESQUISITICES  E DESVIOS  </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>A elite padecia de intensa obesidade e, para piorar, de um modo geral, eram chegados ao alcoolismo (o licor de que já falamos e, ainda, o Vermute – um destilado de vermes fermentados).  </p>
<p>Só alguns poucos sapos médicos , renomados  herpetologistas  – e também o Dr. Alfredo, nos seus tempos de prestígio &#8211; defendiam que a solução do problema estava em moderar a ingestão de vermes, moscas e minhocas e reduzir, em muito, o consumo de bebidas alcoólicas e as idas a Fast Foods. Além do mais, o  respeitável químico dava  nome ao problema com todas as suas letras: o-b-e-s-i-d-a-d-e, e se recusava a usar – como tantos outros &#8211; termos politicamente  corretos , como <em>superávit nutricional</em>, ou <em>hiper-densidade corporal</em> ou, ainda, <em>incremento das dimensões horizontais</em> (*).</p>
<p>Mas, certas indústrias, controladas por uns poucos, insistiam que a resposta para esse problema estava no consumo de alimentos chamados light . Tais indústrias utilizavam-se de empresas de marketing (**)  muito eficientes para criarem indispensáveis  necessidades supérfluas.</p>
<p>Antes do início de toda peça encenada no teatro de Sua Majestade, atores representavam uma mini-ópera em que um graúdo cantor enfartava num <em>dó-de-papo</em> ( o equivalente ao <em>dó de-peito</em> dos  tenores humanos)  ao defender a comilança dos alimentos <em>in natura</em> e ao colocar-se  contra o consumo dos tais dietéticos:</p>
<p>(*) Marqueting Pessoal para Esteticistas  – Crapaud , M ; Capítulo 1, pág 1: O Que Dizer e o Que Calar – Série Auto Ajuda &#8211; Editora Sapo Feliz -  </p>
<p>(**)  RNA PROPAGANDA – Crapaud &amp;Champ </p>
<p>Comer, comer!</p>
<p>Comer, comer!</p>
<p>Para o papo poder crescer</p>
<p>Light não como!</p>
<p>Ligth não como!</p>
<p>Não está no meu cromossomo.</p>
<p>Meu cromossomo</p>
<p>Meu cromossomooooo!!!</p>
<p>A potente nota dó vinha na sustentação vocal desse último <em>o</em> e com ele, a síncope – cena que provocava forte comoção entre os gulosos!</p>
<p>Em seguida, uma rã sapateadora ( uma bengala <em>chique e charmosa, um chamativo chapéu,com seixos chatos  sob as chinelas</em> ) entrava para dançar um sonoro jingle  incitando a platéia a consumir a tal comida light;  a melodia era um plágio descarado do Singing in the Rain , uma bonita canção humana , muito antiga &#8211;  quase do tempo em  que se escrevia anfíbio com ph  ( pergunte a seus avós ! )   :</p>
<p>Só quem sabe  é da soçaite,</p>
<p>Procure em qualquer site,</p>
<p>Com qualquer birinaite,</p>
<p>Só se come comida light</p>
<p>Não se entupigaite!</p>
<p>Proclame por toda a parte</p>
<p>Não vou cobrar copirraite! </p>
<p>Só coma  comida light!</p>
<p>Na verdade, o que chamavam de comida light eram insetos desidratados, os quais haviam se tornado uma das sensações do momento.</p>
<p>- Seu criador ? Quem senão o milionário Dr  Hussein ! Ele ficara  tão rico  com suas criações que acabou por  despertar a inveja das Megeras e,  num dia fatídico , foi  traiçoeiramente atirado cachoeira abaixo  por  bandidos mascarados- jamais localizados !</p>
<p> Bem , mas voltemos a assuntos menos pesados !</p>
<p>Os tais bichinhos  light   tinham, de fato, um aspecto muito magro e, portanto, apenas pareciam comida  ¨emagrecedora¨.</p>
<p>Seu consumo era, mesmo, curioso, pois, embora,  sapos precisem de muita água, os ricaços desafiavam sua própria natureza: comiam vermes, moscas e besouros – todos secos &#8211; para, em seguida, beberem copos e mais copos (dava tudo no mesmo!).</p>
<p>Outro prato só acessível aos ricos, devido seu elevado preço, eram minhocas (também desidratadas!), servidas em filés (filé – minhoca), ou como espaguete. Esse invertebrado era criado no solo úmido e fértil do lado leste e também havia se transformado em monopólio de alguns privilegiados.</p>
<p>Os restaurantes chiques serviam os comestíveis secos utilizando lançadores &#8211; como aqueles usados em nossas competições de tiro em discos &#8211; pois, mesmo com toda a artificialidade, os sapos adeptos a esse tipo de dieta não conseguiram eliminar a necessidade inata de só comerem insetos que se movimentam abruptamente   (e moscas mortas não voam, não é verdade ?).</p>
<p>Mas moda é sempre moda e, por isso, até mesmo certa parcela do povão começou a imitar os  <em>cheios da nota </em>: passaram a comer comida desidratada !  Os açougues que os vendiam não colocavam preços tão altos quanto na ala leste, mas a embromação vinha de suas balanças, tão enganadoras quanto um relógio suíço quebrado: eram açougueiros miseráveis lesando consumidores carentes (e metidos!).</p>
<p>Nas áreas pobres, moscas vivas – e de má qualidade &#8211; eram encontradas em restaurantes chamados naturais. Soltavam-se os insetos defronte à cadeira do esfomeado (não se usavam mesas) e a trapaça usual  era que se tratava de moscas muito velhas e mal nutridas.  Maquiadas de preto para parecerem mais jovens, a natural lentidão do vôo desses insetos com data de validade vencida   era disfarçada espetando-lhes um espinho em seu bumbum – o que os deixava  velozes .  Além disso, enfiavam-lhes uma boa colher de bicarbonato goela abaixo, numa tentativa de esconderem a magreza. O bicarbonato – tal como nós mesmos usamos, algumas vezes, por má digestão &#8211; produzia gás dentro das suas  barriguinhas; essa  malandragem  deixavam- nas mais cheinhas e, portanto, com aparência mais saudável( dizia-se  que a técnica fora criada por um autor indiano(*)  )  </p>
<p>A cena comum nos <em>restaurantes – espelunca</em> era assim: depois de engolirem vários daqueles voadores efervescentes , os sapos estufavam , arrotavam e, em regra,    soltavam um pum constrangedor: era a conhecida <em>indigestão do bicarbonato</em>.</p>
<p>Bem , se você está achando que  é muito problema para uma só saparia ,aguarde os  próximos capítulos.  Foram desvios  como esses   &#8211; e outros tantos- que esgarçaram  o  tecido social desse reino , tornando-o vulnerável a conquistadores cruéis . Afinal , não é o enfraquecimento  da consciência  do cidadão como parte de um todo  que, também, explica  a desagregação  social  entre nós , humanos ?</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>V   ÀS VESPERAS DA INVASÃO </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Era uma daquelas noites comuns. Preocupado, o Primeiro Ministro solicitara uma urgente audiência, precisamente  na hora  em que o soberano mostrava-se o  menos receptível  para  atender quem quer que fosse: a hora de seu banquete.</p>
<p>-         Majestade, os soldados das torres informaram que estranhos sapos &#8211; perto de 30 &#8211; estão vindo em nossa direção.</p>
<p>-         Estranhos em que, senhor Ministro? – perguntou , displicente, sob  a armação de uma pirâmide  feita de  caules de taboas .</p>
<p>-         Bem, parece que&#8230;</p>
<p>-         Diga!</p>
<p>-         Eles têm chifres</p>
<p>-         Chifres?!</p>
<p>-         Sim</p>
<p>-         Vêm da cachoeira de cima ou as de baixo? &#8211; perguntou sem permitir que os garçons lançadores de moscas interrompessem  seu trabalho, ou que  sapas indianas  parassem a percussão da tablas ( aqueles tambores de som tipicamente  oriental)</p>
<p>-         Da de baixo, Majestade .</p>
<p>-         Ótimo: não conseguirão ultrapassar a altura de nossa queda d’ água &#8211; Batráquio sorveu</p>
<p>(*) Marquetingui pra conçumidores de baicha renda e anaufabetos – Xuaprac,W – Serie Se Ajuda &#8211; Editora</p>
<p>Répi Frogui</p>
<p>um grande gole do  cálice de Vermute e soltou um sonoro arroto, imaginando ter encerrado o assunto. </p>
<p>-    Majestade, eles têm três vezes o nosso  tamanho.</p>
<p>-         Três?! &#8211; exclamou engasgando</p>
<p>-         E são bons saltadores, com patas posteriores muito musculosas.</p>
<p>O Rei silenciou , e , levantando o ¨bração¨, mandou todos  congelarem em seus lugares ; em seguida,  inquiriu Champignon com certa inocência:</p>
<p>-         Quem sabe é só uma visita de cortesia&#8230; Não?</p>
<p>-     Pelo que vimos não são inofensivos.</p>
<p>-         Como assim?</p>
<p>-         Bem&#8230; Cortaram as cabeças de algumas serpentes, que ousaram enfrenta-los, com um simples golpe de suas garras afiadas.</p>
<p>-          Garras! &#8230;Afiadas! &#8230;Então é uma invasão?</p>
<p>-         Temo que sim, Majestade.</p>
<p>-         Chame todos os guardas!  Prepare a defesa! Comecem a jogar as nossas bombas na cachoeira (  cactos espinhosos ) &#8211; as maiores que tivermos! &#8211; ordenou entre apavorado e colérico ( todo o séqüito pulou fora , no mesmo instante !)  </p>
<p>-         Eles fugiram , Majestade.</p>
<p>-         Quem fugiu ? . Não me confunda!</p>
<p>-         Os guardas. Quando se espalhou à notícia do ataque, deram nas patas. Temos apenas uma dezena de soldados.</p>
<p>Depois dessa notícia, Batráquio  pensava em mais nada a não ser escapar. Achava que ele seria a primeira vítima e nem se importava muito com o que  poderia acontecer com sua esposa ou à filha – por quem não tinha muita afeição.</p>
<p>Mas o que fazer? Saltar a elevada cachoeira de cima era impossível, mesmo para um bom atleta e muito menos para ele.  Estava entre o paredão de pedras e o precipício. Camuflar-se entre seus sofridos súditos seria tão arriscado quanto ser capturado, pois desfrutava da mesma popularidade que o Bin Laden entre norte-americanos.</p>
<p>Depois de alguns minutos de cara fechada, um largo  sorriso apareceu em sua bocarra:</p>
<p>-         Alguém vai ter que assumir meu lugar! – gritou entusiasmado como se tivesse chegado a uma solução perfeita.</p>
<p>-         Como, Majestade?! – interrogou o primeiro Ministro &#8211; Quem faria isso nessas alturas?</p>
<p>-         Alguém tem que se passar por mim e eu – o Rei &#8211; devo ser protegido!  Chame o Bobo !</p>
<p>-         Mas, o Bobo nunca passará por rei!</p>
<p>-         O Bobo, eu falei! – ordenou com seu característico  autoritarismo .</p>
<p>E lá foram chamar o senhor gracejos.</p>
<p>Depois de cumprimentá-lo de modo suspeitamente  íntimo, o ardiloso Rei e o boboca assustado passaram a conversar, andando de braços dados, como se fossem velhos amigos, Foram se afastando de Champignon e, já à beira do para-peito (ou para –papos, como queiram)  do terraço , com a ajuda nervosa do próprio soberano, o Bobo começou a despir seus trajes típicos ( um chapéu de bicos com chocalhinhos nas pontas  e calça e camisa em losangos de tecidos multicoloridos).</p>
<p>Ao  chegarem às roupas de baixo, Batráquio deu uma histérica gargalhada ao reparar na risível  cueca samba canção com desenhos de muitos cogumelinhos .  Então ,o Rei pediu que o ¨peladão¨ se virasse  de costas.  Sem entender, mas submisso como sempre, obedeceu. Nesse instante , Batráquio deu-lhe a mais potente patada de que era capaz, jogando-o cachoeira abaixo. Refeito da dor que isso lhe causara em seu  membro artrítico , imediatamente , começou a desfazer-se de sua indumentária , ali mesmo , a começar pela peruca .Surpreso  com tudo aquilo , o Barão arriscou  aproximar-se  do stripper. Foi quando  pôde ver , em detalhes  a estranha cabeça de Batráquio: haviam duas bolotas em suas  têmporas, de maneira simétrica, de modo que , vistos de perfil ,  pareciam as orelhas de um urso panda.  Não havia como a  coroa  ficar presa à cabeça  do  monarca e, daí, o recurso da cabeleira !   </p>
<p>- O que é você está olhando, senhor  Sorvete de Pimenta? - com essa provocação o Rei Nú quis   eliminar o  risinho   gozador que se esboçava no rosto de Champignon.</p>
<p> - Nada! Nada, Majestade!</p>
<p>- Deixe-me  explicar: eu serei o novo Bobo . Nenhum invasor ataca os que lhes  parecem inofensivos – ao contrário, até os prestigiam!    Chame as costureiras. Elas precisam  ajeitar-me estas vestimentas (seu manequim era muito maior que o do desafortunado súdito).</p>
<p>-         Mas, quem vai ficar em seu lugar? Vossa majestade sabe que, eu,  mesmo, gostaria, mas&#8230;</p>
<p>-         Não necessito de sua ajuda &#8211; interrompeu-o  com desabrido -  Eu tenho a solução ! – exclamou  o Rei dos Bobos</p>
<p>-     Aquele sujeito!</p>
<p>-         Mas que sujeito, majestade?</p>
<p>-         Aquele. Aquele que diz ser rei quando se embebeda.</p>
<p>Depois de alguns instantes para matar a charada, o ministro esbugalhou os olhos. </p>
<p>-         O Chica Bumba! Majestade&#8230;! Não!&#8230;Não vai dar certo!</p>
<p>Não é preciso dizer que prevaleceu o seu derradeiro  programa de governo:  <em>Meu Reino por Um Bêbado</em> ! <strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>VI-  VAIDADES E VÍCIOS </strong></p>
<p>Antes de continuarmos  com o que  se sucedeu com Dr.Alfredo,  devemos  tentar conhecer , um pouco mais , os contextos social  e político desta comunidade amalucada, os quais sofrerão   modificações tão profundas , quanto inesperadas .</p>
<p>A elite , fazia muito, entrara num processo de  decadência  de  seus valores  : além das muitas  bebedeiras  e  da comilança desenfreada ,  uma característica marcante  da  aristocracia era a inutilidade do dia- a- dia, pois viviam no <em>dolce far niente</em> (  na doçura da ociosidade – como dizem os italianos ). Só se podia afirmar  que eles apreciavam  o trabalho  em um único sentido : podiam ficar horas  e horas  vendo o trabalho dos outros !</p>
<p>O tempo era, mesmo , preenchido  pela preocupação exagerada com si próprio,  com  a própria estética  </p>
<p>As sapas gastavam fortunas em cirurgias plásticas , de modo especial , uma conhecida como <em>lipo-papo aspiração</em>. A própria Rainha estava tão estirada que sua boca nem abria direito: quando pronunciava certas palavras que exigiam mexer muito os lábios, seus braços se movimentavam, como num tique incontrolável. Essa mesma  limitação  também não mais permitia que, sozinha, passasse rímel em seus próprios cílios, pois, tal como acontece com  fêmeas humanas diante do espelho, tal operação exige – sem que ninguém saiba  o porquê &#8211; a abertura da boca (observe uma delas!).</p>
<p>Por outro lado, aquelas de papos miúdos, que  acreditavam que um papo no tamanho certo era essencial para o sucesso, viviam atrás de implantes de resinas dos sapotizeiros, a árvore que produz o sapoti (planta da qual, aliás, nossas indústrias extraem a matéria prima para  os chicles!). E não eram só as miúdas que  davam tudo por um preenchimento ! Não! O próprio Rei , no passado, usara desse recurso  para  levantar suas pálpebras  superiores; mas, como sapos, para  engolirem,  fecham os olhos com bastante força,  o material sob a pele  acabou migrando  para as têmporas  do comilão – essas eram as bolotas que Champignon  contemplara no <em>striptease </em>de Batráquio e a explicação definitiva para a incongruência da coroa.</p>
<p>O principal  responsável pelos implantes era o respeitável Dr Ivo Sapitanga ,  médico com uma extensa lista de  opulentos clientes , os  quais faziam questão de não se conhecerem uns aos outros. Por isso , sua requintada clínica  tinha uma única porta de entrada , mas várias de saída , exatamente,  para que os  endinheirados  não se encontrassem após os procedimentos (*). É evidente: tal como acontece entre nós,  uma conquista estética é sempre motivo de  muito mexerico e , daí , toda discrição é pouca .</p>
<p>No entanto, em uma  situação esses cuidados resultavam baldados: quando, por algum motivo qualquer, os <em>preenchidos</em>  vinham a falecer .Como a cremação era  a maneira habitual <em>dar cabo</em> dos defuntos, o estouro da pelota de resina , pelo calor, sonorizava  um  PÓP  de intensidade  e em  número variáveis , segundo o uso ou abuso  do  <em>recurso resinoso</em>. Assim,  tal fenômeno  post mortem  transformara as exéquias de figurões  em concorridos eventos, pois  , tanto nobres,  como a  plebe ( do lado de fora ) comparecia ao crematório  para descobrir , pelos ruídos, o quanto o morto  tinha  recorrido  aos talentos do  Dr. Sapitanga .Entre o  povão gozador, corria a fama de  que o recorde havia ficado  com uma antiqüíssima  atriz do Teatro Imperial: depois de assistirem a seu  memorável funeral , passaram a alcunhar  os funcionários do crematório de Pipoqueiros!     </p>
<p>No SPA DAS SAPAS, de propriedade da maior linguaruda do reino -  e, também,  escritora de renome &#8211; Madame Crapaud (lê-se Crapô com r carioca), a velharia enganava-se a si mesma,  pagando os tubos pelas chamadas máscaras faciais.  Essas pastas, espalhadas nos rostos ávidos por rejuvenescimento, eram compostas de argila preta e ferrugem, ou de enxofre com polpa de maracujá ou,ainda , por uma gororoba  obtida pela combinação dos diferentes  ingredientes . Não havia janelas nesse salão dos monstros – retiradas depois da constante importunação dos transeuntes que se divertiam ao ficarem sapeando,escondidos, o aspecto  hilário daquelas senhoras. Elas passavam horas deitadas, com os olhos fechados por compressas oculares de fatias estreladas de carambola ou de rodelas redondas de caquis, e , por isso, custaram a perceber que estavam sendo observadas por dezenas de pupilas  curiosas.  </p>
<p>Não é preciso explicar porque tanto terreno úmido e fértil fora destinado a plantações daquelas <em>frutas da juventude</em>, descuidando-se da  população carente, que se espremia no sertão infértil da zona oeste.  </p>
<p>Madame Crapaud (conhecida, entre a plebe, como Madame Meleca) cuidava , ainda ,  da melhor academia  de <em>ginástica passiva</em> do reino  – aquela  em que os exercícios são realizados – ou melhor dizendo, simulados -  sem requerer  qualquer  esforço  dos  alunos : esquisitos  estimuladores elétricos musculares  incumbiam-se  das  flexões  abdominais</p>
<p>(*)  Maketing Pessoal Para Cirurgiões Plásticos –Crapaud ,M-  Pág 1999, Capitulo 103: O Resultado Bom é Meu ; o Ruim, do Concorrente – Série Auto Ajuda – Editora Sapo Feliz</p>
<p>e também , curto – circuitavam  as patas posteriores, fazendo-os pularem ) ; <em>eliminadores de gorduras localizadas</em>  eram  mal disfarçados  aquecedores ,que só faziam  suar a pele  sobre a qual  eram  colocados ; levantadores de pesos, cheios de roldanas redutoras de forças, permitiam elevar  halteres de pesadas pedras  com  apenas um dedinho  e  corridas, em esteiras velocíssimas, eram realizadas  usando-se   um acessório indispensável: um par de patins!   </p>
<p>Essa  <em>sapa sagaz</em> (que, dizia-se à boca não muito pequena, era namorada de Champignon), também, mantinha um dos maiores estoques de bicarbonato de todo o reino, e isso depois que se consagrara com o lançamento de suas Massagens Tabatingá &#8211; como ela dizia com seu sotaque afrancesado. Suas funcionárias, com movimentos manuais velozes  aplicavam, nas costas  dos clientes,  suaves  golpes, à semelhança de golpes de caratê, para  espalharem uma mistura de tabatinga (uma argila branca) com o famoso bicarbonato: isso  fazia levantar pequenas bolhas de gás carbônico  sob a pele descamante &#8211; estouradas  no ato. Aliás, era nesses <em>moments du tabatingá</em>, que  a fumaça venenosa da maledicência impregnava toda a atmosfera do  salão, e era,nesse mesmo tempo , que  a francesinha  tomava conhecimento  de tudo o que se passava no reino.   </p>
<p>Mas o que vinha fazendo estrondoso  sucesso , há já algum tempo, era, mesmo,  a tal Botulina – de que já  falei:  injetada sob a pele enrugada, mantinha-a esticadinha por muito tempo, o que, marcadamente , as  marcadas velhotas, apreciavam sobremaneira.</p>
<p>A rainha Papudinha havia usado tanta Botulina (por causa de umas ruguinhas nos cantos da boca) que sofrera até uma paralisia facial! Esse acidente a deixara inexpressiva e muda, pois todos os músculos da fala tinham sido afetados; por essa razão, há meses, não conseguia  comunicar-se  e, aí, teve que aprender a linguagem de surdos. Viu-se obrigada a contratar uma empregada especializada na comunicação por sinais  para traduzir seus comandos exigentes (Era divertido vê-la discutir com gestos nervosos e rápidos, os quais, com muita calma , a tradutora explicava ao interlocutor).</p>
<p>Nas festas da corte podia-se ver a quantidade exagerada de batons de urucum, sombras de azinhavre ou de jenipapo, delineadores de argila negra. Nem mesmo os velhos machos eram menos vaidosos e  o Rei Batráquio vinha antes de todos  na  fila desses presunçosos . Cobriam seus papões amarelos e flácidos com um creme a base de enxofre para esconderem as muitas pintas verdes que lhes apareciam com a idade. Isso explicava porque  viam-se tantas manchas amarelas boiando na superfície do lago no dia seguinte a festas badaladas: era sinal de que os pintados tinham se esbaldado em farras  .</p>
<p>Agora digam-me :  essa comunidade  não estava quase que pedindo para ser  vitimada por um desastre ? É &#8230;muitas vezes , o caos deve  preceder  o  recomeço .   </p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>VII A INVASAO </strong></p>
<p>Seqüestrado, o mendigo  foi levado ao palácio semi-consciente, sem entender nada do que estava acontecendo.</p>
<p>De roupão e muito trêmulo – tanto da ressaca, quanto de medo &#8211; duas camareiras das Megeras borrifavam líquidos cosméticos em sua pele ressequida, tentando dar à sua cútis o aspecto sedoso e úmido da pele dos aristocratas.</p>
<p>Banho de espumas, cremes de enxofre e, agora, sóbrio, foi visitado pelo seu seqüestrador no dia seguinte. O novo bufão estava com aparência mais engraçada que o  antigo: o rosto  todo branco de tabatinga, a bocarra circundada por um grosso contorno de urucum , as bochechas   azuladas por corante de jenipapo ;  o gorro  recebeu duas aberturas para a saída das <em>orelhas de panda</em> ,agora , pintadas de amarelo. Mas se o externo era multicor, o interior estava cinza.</p>
<p>-          Mas por que eu? Eu não sei representar, sou apenas um mendigo, um&#8230; alcoólatra-</p>
<p>Alfredo reclamou depois de  o Rei dos Tolos  comunicar-lhe  como deveria comportar-se.</p>
<p>-         Você é cidadão desse reino e tem obrigações para comigo. Vai fazer  o que eu mandar!–</p>
<p> Batráquio gritou  com rispidez . </p>
<p>-         Um rei aleijado? – desafiou Frog.</p>
<p>No estalar dos dedos reais, o engenheiro Oto e seus auxiliares entraram no aposento trazendo uma pata mecânica &#8211; uma prótese desenvolvida às pressas.</p>
<p>O chefe tentou dar uma explicação técnica sobre seu funcionamento:</p>
<p>-         Trata-se de uma pata feita de resina especial, com molas inoxidáveis, controlada por servomecanismo sincronizado ao membro contra lateral, o que lhe permitirá saltos equilibrados de até 25 cm sem qualquer dificuldade e, além disso&#8230;</p>
<p>Batráquio  interrompeu-o exasperado .</p>
<p>-         Basta com isso!  Os invasores estão chegando e você aí, com esse palavrório! Tragam-no, aqui , no trono !  Costureiras: ajustem o meu roupão de gala no corpo desse caquético para despistar todos estes ossos&#8230; e também para cobrir esta parafernália  horrível!</p>
<p>E referindo-se à feiúra da prótese, emendou: &#8211; O senhor devia ter um arquiteto em sua equipe!</p>
<p>-         Bandoleiros à vista! – gritou o sapinho sentinela</p>
<p>-         Rápido! Beba isso!– ordenou Batráquio.</p>
<p>Diante da resistência  do coitado, os soldados agarraram-no : fizeram-no engolir a garrafa de licor à força . Começando a ficar embriagado, passou a cooperar e, pouco a pouco, foi bebendo os copos que lhe eram dados até o efeito desejado ser alcançado. De repente, surgiu o estrabismo do olho direito e ele se proclamou:</p>
<p>-         Eu sou o rei Alfredo. O que quereis que eu vos faça?</p>
<p>Batráquio exultou  com  o resultado  de sua <em>fulgurante</em> estratégia. Em seguida , colocou  sua grande coroa em seu  dublê : ela foi parar nos  ombrinhos raquíticos do Dr.Jenipapo , ocultando-lhe  a cabeça e o pescoço , o que lhe dava a aparência de  monarca entronizado depois de guilhotinado .</p>
<p>-   Maldito microcéfalo! – vociferou  raivoso;  mas – <em>fiat lux</em>- novamente , brilhou  a  lampadinha  de sua parca  criatividade ( <em>de , no máximo, 3 Watts</em>), e  o novo Bobo  saiu-se  com essa: usou sua ¨perucona¨  para compensar as desproporções evidentes  e , desse modo,  impediu  o ridículo escorregamento .       </p>
<p>Colocou, então , o resto da bebida no  cálice real , e tomando , também ele , um gole de coragem , ordenou :</p>
<p>-         Vamos logo! Vamos até o trono! Minha mulher e todos os deputados estão nos esperando – completou o soberano auto destronado.</p>
<p>-         Nem todos. Nem todos, Majestade &#8230; &#8211; murmurou o Primeiro Ministro, sem dele conseguir qualquer atenção a essa observação .</p>
<p>Lá do trono, o ex-monarca mandou ligar os alto-falantes que cobriam todo o reino, e deu o microfone para o Barão fazer  um breve pronunciamento  ensaiado  :</p>
<p>-         Bem vindo, excelentíssimos senhores sapos chifrudos! O Rei Alfredo saúda a todos os ilustres visitantes!</p>
<p>A população assustada não deixou de reparar na estranha frase:</p>
<p>- Mas que Rei é este? &#8211; todos se perguntavam</p>
<p>Arrombaram a porta do palácio. À frente, vinha o chefe dos invasores, o General</p>
<p>Chifrudão, seguido por três dezenas de soldados – todos com o mesmo aspecto feroz.</p>
<p>Agora podia-se observá-los bem: muito grandes, o rosto, o papo e os membros avermelhados, de um vermelho intenso; no dorso, passando pelo lilás, a pele de um azul bastante escuro, formando uma faixa sobre  a coluna dorsal ; dois chifres curtos e curvos para dentro, de pontas rombas e dentes caninos aparentes , muito agudos ; nos olhos, pupilas negras e compridas, como a dos jacarés; atrás dos ouvidos, salientes glândulas de veneno &#8211; também de cor azul; nas mãos, como haviam percebido de longe &#8211; dedos com unhas cortantes e as patas inferiores muito musculosas .O mais enigmático, no entanto, era a presença de uma terceira pata superior- um braço esquerdo-  cuja mão segurava uma ameaçadora fivela (em forma de crânio!) de um largo cinturão .</p>
<p>Calado , o General foi aproximando-se  do trono, encarando, não só Alfredo, mas também <em>suas</em> amedrontadas esposa e filha, o sisudo Ministro Pimenta  (que segurava o cálice com a bebida controladora) e o Bobo Batráquio, cujo sorriso tolo não combinava com seus olhos arregalados de pavor. Aqueles segundos de tenso silêncio só foram quebrados pelo estalar da pata mecânica do rei dopado, a qual, de modo inesperado , pulou sob o roupão (Batráquio apressou-se em recolocá-la   e praguejou,secretamente,  contra o engenheiro Oto).</p>
<p>O invasor viu o mendigo disfarçado  como um soberano muito magro, abatido e de pele descamante, o que contrastava com as gordurinhas transbordantes e o brilho cutâneo  dosoutros ao seu redor. Inspecionou a bancada dos deputados e também notou que, dentre os poucos presentes,  a maioria parecia-se com o monarca – com um perceptível ar de sofredor (era isso que Champignon quisera dizer ao rei auto deposto: a maior parte  dos nobres deputados havia fugido).</p>
<p>Não lhe escapou, ainda, o cheiro alcoólico quando passou pelo trono , pelo Bobo e por alguns desmazelados parlamentares.</p>
<p>Chifrudão, então, interrompeu a interminável  inspeção  com uma inesperada observação:</p>
<p>-         Parece que Vossas Excelências têm tomado muito sol por aqui! &#8230;</p>
<p>E acrescentou:</p>
<p>-   Vejo também que nem todos neste reino julgam que somos dignos de uma recepção   calorosa – desabafou, reparando nos muitos assentos vazios &#8211; Oh, não, não! – completou com ironia .- Certamente  não vieram nos receber porque estão mais ressecados que Vossas   Excelências! Mas, sabem meus amigos, trouxemos algo que poderá vir a  interessa-los :     um ¨amaciante¨ de pele muito eficaz!</p>
<p>E daí ordenou com firmeza:</p>
<p>-    Sargento: encontre os faltosos e façam-nos a serem os primeiros a provar  nosso    amaciante¨!</p>
<p>-         Sim , Comandante!  .</p>
<p>Voltando-se para o trono, o militar continuou o discurso em tom de gozação</p>
<p>     &#8211; Ah, mas Vossa Majestade está em seu posto!   Muito bom!</p>
<p>Nesse momento , coagido por uma discreta cotovelada  do assustado Bobo,  o mais mendigo dos reis  falou com a dicção típica dos embriagados, mostrando grande tranqüilidade :</p>
<p>-         Eu sou o Rei Alfredo. O que querereis que vos faça?</p>
<p>-     Ora, ora, ora! . Mas que soberano mais bem educado!- E adotando um tom sério, acrescentou:</p>
<p>-  Estamos aqui como uma ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL, senhor Rei: somos o GREEN &#8211; PLEASE. Lá em nossa região tem chegado muito da porcaria que vocês,  aqui, jogam cachoeira abaixo: espelhos quebrados, garrafas vazias, perucas, <em>colants,</em> pedaços de resina , lixo, lixo, lixo! (gritou inflamado); e, recompondo sua  sobriedade  militar mil vezes ensaiada,  completou:</p>
<p>- Viemos para acabar com esta poluição!</p>
<p>Neste instante a pata sobressalente do invasor ganhou vida própria e ensaiou gesticular um não com seu dedo indicador pontudo, ao que ele reagiu com irritação, dando-lhe uns tapas e  imobilizando-a sob seu cinturão; o mesmo aconteceu com as mãos de seus subordinados, que decidiram acompanhar o exemplo do chefe o mais prontamente  possível, pois morriam medo de uma punição).</p>
<p>Com entonação tranqüila e enfática prosseguiu :</p>
<p>- Alguns de nós adoeceram   por causa da contaminação da água que vocês fazem aqui em cima. E isso vai &#8230; a- ca- bar-  falou escandindo as sílabas.</p>
<p> - Não queremos seu dinheiro. Não queremos suas mulheres.  Não queremos sua comida    ou qualquer coisa desse reino decadente. Vamos ensiná-los a comportar-se  e os   recalcitrantes  serão punidos. A partir de amanhã, nossos agentes estarão presentes em     todos os locais de trabalho , nas ruas e nas casas , observando todos vocês.   A vida   deve continuar! – não é mesmo?  E eu ficarei aqui, junto de Vossa Majestade,  assistindo a todas as audiências.  Quem não cooperar ,ou criar distúrbios, baderna, irá    receber uma boa dose do nosso ¨amaciante¨ cutâneo.</p>
<p>-     Não compreendemos bem senhor . O que significa esse ¨amaciante¨ cutâneo? – interrompeu-o  o Sorvete de Pimenta</p>
<p>-    Ah! Foi bom perguntar. Senhor&#8230;?</p>
<p>-    Primeiro Ministro Barão de Champignon</p>
<p>-         Ah, sim&#8230; Senhor Ministro Champignon . Vamos ver:por favor, um voluntário?&#8230;</p>
<p>E começou a escolher ao acaso; acabou detendo seu olhar, exatamente , no Bobão .</p>
<p>- Por favor, senhor Bobo, aqui na frente ( de pronto , o mais bobo dos reis obedeceu ; então, Chifrudão, apertando os olhos com força , espirrou-lhe um líquido azul claro saído de suas duas proeminentes glândulas venenosas em jatos certeiros .                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   Batráquio, Sem  esboçar qualquer reação, começou a dissolver-se, como um sorvete num microondas; e em poucos segundos foi transformado em uma gosma esverdeada e espumante , mal encoberta pela vestimenta multicolorida . E lá estavam elas, intactas  : as duas  ¨berrugas de panda ¨! ( é fácil entender : todo mundo sabe que nossos chicletes  são  muito difíceis de desaparecem na Natureza – vejam, por exemplo, a calçada em frente às escolas !)  </p>
<p>Todos ficaram aterrorizados. Ou melhor, todos menos um: o recém entronizado soberano; impassível, caolho, olhos semi cerrados, ele aproveitou-se daquele momento de perplexidade paralisante  para arrancar o cálice das mãos do Barão  e  bebeu toda a talagada. Então, o estrabismo mudou de olho e ele transformou-se no Chica Bumba:</p>
<p>-         EU SOU UM SAPO, CHICA BUMBA, CHICA BUMBA!</p>
<p>-         MUITO FELIZ, OH CHICA BUMBA, CHICA BUMBA!</p>
<p>-         COM ÁGUA LIMPA, FICO MUITO MAIS CONTENTE!</p>
<p>-         COM ÁGUA SUJA, FICO MUITO MAIS DOENTE!</p>
<p>O General e seu imediato entre &#8211; olharam-se surpresos, e,depois de alguns  versos , o chefe dos invasores  desatou a rir, e, com ele,  todos os soldados. O Primeiro Ministro, suas pseudo- esposa, pseudo &#8211; filha e os pseudo &#8211; representantes do povo, vendo que esse comportamento alegrava os bandidos, também  puseram-se, histericamente , a cantar e a dançar, o que aumentou ,ainda mais, a  satisfação dos bandoleiros.</p>
<p>Após a segunda repetição, Alfredo apagou  como sempre , caindo de costas desacordado.</p>
<p>-   Muito bom! Muito bom este rei! Acho que vamos nos divertir muito por aqui – declarou o  cabeça .</p>
<p>Seu auxiliar cochichou-lhe :</p>
<p>-   Talvez seja melhor conserva-lo, Comandante . Ele parece ser um líder muito querido!</p>
<p>-    Sim, sim, acho que você tem razão.</p>
<p>Antes de deixarem o salão, o chefão definiu alguns pontos, com voz de comando:</p>
<p>-         Vamos ocupar toda a ala leste do palácio, de onde ninguém entra ou sai sem minha permissão!  Lá, vamos descarregar os equipamentos e mantimentos e não queremos ninguém por perto!  Durmam bastante,  que, amanhã, a noite vai ser longa!</p>
<p>Mais abaixo,  contarei  o  papel  assumido  pelo  <em>rei portador de necessidades especiais </em>diante do inesperado  desaparecimento  de Batráquio . <em> </em> </p>
<p>Mas primeiro , devemos esmiuçar , um pouco mais ,  as  confusas relações  sociais  desse  reino , pois Alfredo  terá que  governar  manobrando interesses  muito diferentes e lidando  com  mafiosos muito perigosos  .</p>
<p>( À propósito , quanto ao que aconteceu com o Rei Batráquio, até hoje correm boatos de que não foi, puramente , obra do acaso, mas uma bem planejada vingança do antigo Bobo : jogado cachoeira abaixo, ele teria encontrado os chifrudos antes de todos! )</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>VIII -  ESPERTALHÕES &amp; NEURÓTICOS  </strong></p>
<p>Os problemas desta sociedade enlouquecida  não eram só estéticos , mas , principalmente,éticos.</p>
<p>Sem o menor pudor , por exemplo, cultuavam os winners (  fala-se uiners) ,<strong> </strong>mesmo que seu sucesso tivesse sido alcançado por meios desonestos.  Atletas que tomavam hormônios ara aumentar a massa muscular ou que usavam estimulantes para hiper saltos, cantores pops viciados em cogumelos alucinógenos &#8211; todos eram venerados pela nobreza fútil, que,vira – mexe, os condecoravam com Medalhas do Mérito Batráquio em infindáveis comemorações e ¨bebemorações ¨. Mas , por incrível que possa parecer , o povão também os admirava!   ( bem , isso não é tão incrível assim, não é mesmo ?)</p>
<p> Até os falsos religiosos que fraudavam milagres (como fazer saltar um sapo paralítico por meio de uma geringonça de molas bem oculta e que jogava o sujeito para cima ao atender ao comando padrão – Anda irmão!). &#8211; eram, invariavelmente , paparicados e ficavam muito ricos com essas sessões de descarrego lotadas de fieis .</p>
<p>O fato é que , há tempos , disseminara-se uma degenerado misticismo  em todo esse reino. Aquela pirâmide citada logo no início, por exemplo, fora idéia da Rainha , para canalizar boas energias cósmicas –  dizia ela -  e, assim,  diminuir a  verdadeira epidemia  de problemas mentais que grassava entre as madames .</p>
<p>A verdade verdadeira  é que havia pirâmide em tudo o que era lugar : sobre  os tronos reais,  sobre as cadeiras parlamentares, nos açougues , nos consultórios médicos ,  sobre as camas,  na mesa de refeições, sobre vasos sanitários. E a  soberana   era a principal responsável  por essa  onda piramidal .  Ela ficava irritada quando alguém  lembrava-lhe do caso de sua própria  tia,  também muito chegada a  pirâmides ,que, não fazia muito , morrera sob uma estrutura daquelas  fulminada por uma descarga elétrica atmosférica ( raios, vocês sabem , são atraídos por quaisquer coisas com pontas elevadas e erguidas em áreas descampadas  – como  pinheiros,  torres de igreja, ou &#8230;pirâmides!  )</p>
<p>Neuróticos  abundavam nessa comunidade ;  eles  gastavam  incontáveis horas em consultas psiquiátricas, mas, mesmo  depois de anos e anos de tratamento, não conseguiam deixar a <em>chupeta  </em>da psicanálise. E o Dr. Krötte Schnuller ( leia-se Crote Shinuler – com <em>r</em> bem vibrante ), o maior terapeuta  da saparia  amarela, de linha freudiana, ganhava muito com isso ;  os casos mais freqüentes eram uma psicose, tecnicamente, classificada   como INDEVIDA ( Inconformidade Decorrente da Vida Dupla dos Anfíbios), ou  pacientes  gravemente viciados em  álcool , cogumelos ou fumos  alucinógenos   (AEDS- Álcool e Derivados ) . No entanto, de longe, a  depressão  era a patologia – campeã , a  ponto de um  parlamentar    esquizóide  apresentar um projeto  na câmara  propondo a  dissolução, de quando em quando,  de alguns  quilos de  anti-depressivos na água da própria  lagoa.  </p>
<p>A incidência de tentativas de suicídios  era muito elevada  mas os casos consumados  eram poucos, pois a maioria parecia, mesmo ,só tentativa para chamar a atenção, tal a ineficácia do  método  preferido  pelos <em> tentados </em>: o enforcamento ;  como  sapos não tem  lá   um pescoço  muito conspícuo, a corda  acabava escorregando para a  boca   dos dependurados , o que resultava, ao final e no máximo, em algumas escoriações nos  lábios .</p>
<p>Mas quem se matava , mesmo, eram os   sapos- sapadores, de quem já falei : muitos morriam  soterrados  em buracos profundos a procura de pedras  consideradas energéticas. Quartzos, jaspe, ágata  e, nos últimos tempos , rubelita, um cristal vermelho, que, acreditava-se, possuía emanações ¨radioestésicas”  anti depressivas, tinham bons preços entre  as espertas  <em>litoterapeutas</em>  , máxime , Madame Crapaud,  uma das maiores comerciantes  de pedras. Com seu faro para negócios, ela inventara,até,  uma ioga piramidal litológica: o anfíbio zen ficava  na posição característica sob uma pirâmide que continha  um cristal daqueles  no vértice superior. E não só isso:  banhos de diferentes cristais, banhos de ervas , banhos de flores de maracujá, de flores de sapoti  e até acupuntura auricular ( ela dizia que todo sapo tem uma  orelha oculta ! ) , nas mãos da Madame Meleca, transformaram-se em  verdadeiros caça- níqueis.</p>
<p>Mas , como veremos , toda esta insensatez  estava prestes a  mudar – e mudar de uma forma impensável.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>IX- VIRANDO O JOGO</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Na tarde seguinte àquela  <em>soberba</em> apresentação do Chica Bumba aos  conquistadores recém chegados , o sobra reciclado   foi deixado inconsciente  no quarto do  seu predecessor, com um soldadinho nativo à porta e um grande sapo bandoleiro, um pouco mais adiante; logo que despertou, ao anoitecer, Frog tentou fugir.</p>
<p>-         Majestade, por favor, não tente ir embora, pois aquele mal encarado ali vai machucá-lo– o seu guardinha explicou-lhe sussurrando.</p>
<p>-         Eu não sou majestade coisa nenhuma! Sou apenas um mendigo, sou um&#8230;</p>
<p>-         Eu sei &#8211; interrompeu-o &#8211; Todos os dias eu o via em meu caminho para casa. Também moro por aqueles lados, senhor Chica Bumba.</p>
<p>Alfredo, de saída,  simpatizou-se  com esse soldado Luizinho, e  chamou-o para dentro,  sob os olhares desconfiados do outro.  </p>
<p>-         Ouvi o que o Ministro e As Megeras combinaram enquanto você estava dormindo. O plano é deixá-lo intoxicado todos os dias, controlando  seu desempenho como  rei. E  perceberam – depois do que aconteceu ontem – que você&#8230;deve&#8230; tomar&#8230; apenas&#8230;  uma dose certa&#8230; de bebida.  (o guardinha falou, mordendo os lábios para conter a enorme vontade de rir que o acometera naquele instante).</p>
<p>Então, a camareira  bateu à porta, trazendo a garrafa dominadora.</p>
<p>-         Olá, Margarida. Ele já sabe de tudo – disse Luizinho, agora recomposto e sério.</p>
<p>-         Sinto muito- disse-lhe constrangida. O Barão  mandou você beber o que tem nesta garrafa agora mesmo, nem uma gota a mais, nem menos. Ele virá aqui dentro de quinze minutos e, se não beber, espontaneamente , o forçará, como fez ontem.</p>
<p>Tentaram anima-lo, dizendo que seria inútil resistir e que,  passados àqueles tempos difíceis, talvez, ele recebesse alguma boa recompensa dos poderosos. Percebendo, no entanto, que seus  consolos eram inúteis, resolveram ir logo para  seus afazeres.</p>
<p>Para o prisioneiro, os minutos que se seguiram pareceram-lhe  uma eternidade &#8211; pensando a mil por hora em tudo o que estava acontecendo e como livrar-se de tamanha  encrenca.</p>
<p>No tempo determinado, o Primeiro Ministro, a Rainha e a Princesa &#8211; acompanhados por quatro guardas, entraram para verificar se o prisioneiro os havia obedecido.</p>
<p>- Segurem este bêbado sem vergonha que eu, mesmo, esvazio essa garrafa em sua garganta!- gritou o Pimenta Braba , ao constatar a sóbria rebeldia de Alfredo. Luizinho e Margarida assistiram aquela cena grotesca com os corações apertados, testemunhando a violência dos soldados e de Champignon contra um sapinho tão indefeso e raquítico.</p>
<p>Em poucos minutos instalou-se o efeito desejado: agora sereno, altivo e estrábico do olho direito – lá estava ele:</p>
<p>-         Eu sou o Rei Alfredo: o que quereis que vos faça?</p>
<p>Os covardes comemoraram.</p>
<p>Colocada a prótese de Oto, devidamente  vestido e com a cabeleira real coroada, o Rei &#8211; por- Decreto-Alcoólico foi levado até o parlamento pela mão de Batráquia.  Lá estava o General , sentado à direita do trono, com seu imediato. Havia mais deputados que no dia anterior, pois eles perceberam que se não aparecessem seu destino seria líquido e certo. De qualquer maneira, havia muito espaço e os representantes dos plebeus traziam até certo ar de satisfação em suas faces sofridas, pois, nunca haviam desfrutado de tanto espaço, como agora.</p>
<p>Logo que o Rei  assentou –se , a audiência foi iniciada  :</p>
<p>-   O que quereis que vos faça-principiou Alfredo com a voz ébria de sempre.  </p>
<p>-         Bem, majestade – introduziu o  Ministro – a pauta do dia é a escolha da empresa que executará o conserto e a instalação de novos chuveiros para os bairros da  periferia.</p>
<p>-         Sim, sim – respondeu com o mesmo ar catatônico da sua estréia. Mas em seguida, não mais estrábico e tirando a coroa cabeluda, completou com fluência :</p>
<p>-         A propósito, resolvi que o custo desta reforma deverá ser todo arcado  pelas nossas finanças. Também decidi nomear uma comissão de nobres deputados, por mim  designados, para acompanharem a compra dos materiais, verificando preços e a qualidade do que vai ser utilizado. Os  advogados deverão incluir, nos contratos, cláusulas de garantias pelos serviços executados e outras, de multas, por atrasos na execução, defeitos de instalação ou de conservação.</p>
<p>Champignon arregalou seus  salientes olhos (a Rainha Plastificada e a Princesa Botulínica não foram capazes de fazer isso).</p>
<p>-         Ainda  deliberei que iremos construir um grande chuveiro,de cerca de dois metros de altura, na ala oeste da cidade, que tem pouca umidade, e vamos multiplicar por dez os berçários-aqüíferos&#8230;</p>
<p>-         Mas majestade&#8230; isso tudo vai custar uma fortuna! – interrompeu o embasbacado  Sorvete de Pimenta. </p>
<p>-         O que temos arrecadado nos últimos anos será mais que suficiente. E , sem dúvida , gastaremos muito menos do  que para aquele projeto  maluco da pirâmide – sobre o qual , aliás, agora ,  manifesto meu  voto de qualidade : vetado .</p>
<p>O General aplaudiu a idéia:</p>
<p>-   Muito bom , Rei Alfredo! Muito bom!  (a sua pata paralítica acordou e seu polegar comemorou, sem nenhuma repreensão, ao fazer um sinal positivo, o mesmo acontecendo com o de seus soldados). </p>
<p>-         Meu bem! &#8211; chamou-o a Megera-mãe &#8211; você deve estar com a garganta seca. Tome um pouco de sua bebida preferida!</p>
<p>-         Não, não, muito obrigado&#8230; meu bem &#8211; Frog respondeu com hipocrisia e ênfase.</p>
<p>A conclusão ficou evidente: ele os havia enganado, trocando o Licor de Jenipapo por água.</p>
<p>-         Ah, seu bêbado farsante! &#8211; gritou o Primeiro Ministro descontrolado, esquecendo-se de que estava na presença dos bandoleiros.</p>
<p>-         Ora, ora, ora! – interveio Chifrudão – quanto mais conheço este lugar, mais eu me surpreendo. Um ministro ofendendo seu rei!  Isso aqui não é um Reino, é uma bagunça!</p>
<p>-         Mas vai mudar a partir da visita de Vossa Excelência – asseverou Alfredo com serenidade imperial . Por favor, estamos com poucos guardas: encaminhe este senhor ao calabouço.</p>
<p>-         Oh, oh, oh&#8230; Será um prazer, Majestade!  Coronel cumpra a ordem do Rei!</p>
<p>Champignon foi esperneando, gritando sem parar: &#8211; Bêbado! Bêbado safado! </p>
<p>Tão logo pode , continuou:</p>
<p>-         O soldado Luizinho logo ali, será meu novo Primeiro Ministro &#8211; Alguma objeção dos senhores deputados ?</p>
<p>De imediato , os  deputados da bancada da fome  manifestaram-se a favor ,enquanto os aristocratas permaneceram  hesitantes.</p>
<p>- ASRE ! – Alfredo bateu o martelo – Continuemos ,  pois , não há tempo a perder : Mandarei construir O Centro Real de Reciclagem de  Lixo, que empregará     a população necessitada. A partir de hoje, está     instituída uma pesada multa por   poluição ambiental . A água de todas as indústrias e  estabelecimentos comerciais terá que ser tratada, de  modo particular&#8230;( olhando para suas mulheres ) a  dos  centros de estética . Todo o bicarbonato será   confiscado, sendo proibido seu uso, tanto em    massagens, como&#8230; (e, agora,encarando  os  deputados  desalinhados  ) -  no despistamento da magreza  de  moscas .</p>
<p>Nessa altura de seu programa de governo, o manda chuva de chifres mostrava-se perplexo com a desenvoltura daquele que, no primeiro contato, considerara um bêbado engraçado. A Megera-filha gesticulava zangadamente  um protesto incompreensível (ela era sócia de todos os centros de estética do Reino).  Os deputados, também ligados às indústrias poluidoras,  ameaçavam uma reação enfurecida, mas se seguraram. Quando, ao final, o revolucionário  decretou que, a partir daquela data, estava banida a produção, estoque ou utilização de Botulina em todo o território, a Rainha não se conteve , e,nesse momento , avançou sobre  o Rei da Anarquia ,destronando-o com violência : pulou sobre suas costas, o que fez sua prótese saltar para longe.</p>
<p>O General, que, de certa forma, até já se simpatizara com este personagem empolgante, estava espantado com toda aquela confusão, mas agiu com rapidez: uma tapona tirou Batráquia do dorso real e jogou-a para os braços de um de seus soldados, que tratou de levá-la para a prisão, junto com a filha.  </p>
<p>O segundo Primeiro  Ministro , sem quem ninguém percebesse, recolocou a pata voadora, em Alfredo , que, um pouco machucado  resolveu acabar a sessão.</p>
<p>Antes, porém, decidiu fazer uma provocação aos deputados que sabia serem os responsáveis pela sua ruína financeira e moral: simulou um pequeno trago do cálice e começou a cantar o seu conhecido refrão.</p>
<p>-         EU SOU UM SAPO, CHICA BUMBA, CHICA BUMBA!</p>
<p>-         MUITO FELIZ, OH CHICA BUMBA, CHICA BUMBA!</p>
<p>-         COM ÁGUA LIMPA, FICO MUITO MAIS CONTENTE!</p>
<p>-         COM ÁGUA SUJA, FICO MUITO MAIS DOENTE!</p>
<p>Os militares  riram muito e começaram a dançar. Vendo que o plenário raivoso não os acompanhava em sua totalidade, o próprio Comandante obrigou os resistentes a participarem daquilo que acabou imaginando ser um comportamento ritual muito especial.</p>
<p>O caminho estava aberto para o soberano aleijão modificar, radicalmente , a organização social desse povo &#8211; e isso, para a surpresa de todos , com ajuda de alienígenas brutais.</p>
<p><strong>X- REFORMAS E ENIGMAS</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>O pessoal do Movimento dos Sem –Água  estava muito feliz com seu soberano e, à medida que o tempo passava, surpreendia-se, cada vez mais, com as iniciativas tomadas .</p>
<p>O chuveirão proposto por Alfredo era, de fato, um plano fenomenal. Com ele, todo o reino receberia uma névoa continua e controlada. O monarca  entregou o projeto ao mesmo engenheiro Oto, que bolou um sistema de potentes pistões movidos por uma colossal  roda d´água colocada na cachoeira de cima. Este sistema, além de alimentar o tal chuveirão, também irrigaria a rede de tubulações dos chuveiros menores e não seria mais necessário o bombeamento com  alavancas obsoletas e de má qualidade .</p>
<p>A obra iria durar alguns meses, mas ia adiantada com a ajuda dos conquistadores ( que passaram a ser chamados, pelos nativos, de <em>vermelhos</em>),   . Com suas poderosas patas, eles abriram muitas lagunas para berçários e outras, para criadouros domésticos de minhocas e moscas – cuja criação estava sendo estimulada pela própria GREEN-PLEASE. Foram eles , também, que, com facilidade, derrubaram um bloco de casas dos aristocratas para abrir um espaço publico de acesso à margem oeste do lago, e reduziram as áreas de plantação de carambolas, caquis e sapotizeiros ( além das plantações clandestinas, de canabis e papoulas ! )O Rei era contrário a exibicionismos, mas o General quase que  obrigava-o a realizar festivas cerimônias de inauguração a cada nova obra. Chifrudão sempre tomava a palavra e era ele quem cortava as fitas amarelo-rubras.</p>
<p>Num de seus discursos mais inflamados, foi muito aplaudido pela população:</p>
<p>-   E graças à cooperação de nossa ONG (a pata rebelde ameaçou gesticular um não, mas foi impedida), os esforços da comunidade e à vontade política de vosso Rei tem se verificado uma significativa diminuição da mortalidade infantil e um aumento da natalidade. Girinos nascem e crescem saudáveis, com caudas gordinhas, logo  desenvolvendo patas bem torneadas e  papinhos amarelinhos! -exclamou ele com tanta satisfação que até Alfredo, por alguns instantes,  sentiu-se confundido em sua secreta repulsa por aqueles sapos  agressivos .</p>
<p>Percebendo a cooperação dos bandoleiros, o Rei da Abstinência Alcoólica, também, passou a ter mais coragem para impedir algumas das desonestidades mais comuns. Mandou trocar todas as balanças desreguladas dos açougues, impediu a exploração praticada pelos falsos milagreiros, atacou o tráfico de  psicotrópicos e  apreendeu todos os narguilés fumarentos &#8211; claro que, tudo isso, sempre com um daqueles chifrudos   ao lado dos Oficiais  de Justiça.</p>
<p>Retomou, ainda, a produção de sua pomada em escala industrial e ordenou que sua distribuição aos desassistidos fosse inteiramente  gratuita.</p>
<p>O trânsito das carruagens foi disciplinado por leis rigorosas , seja para impedir os temíveis atropelamentos , seja para implantar um projeto comunitário anti-obesidade. Todos os gordinhos foram convocados para sessões vespertinas de ginástica, orientadas  pelos antigos Bombeiros &#8211; aqueles sapos musculosos que,antes,  ganhavam com a retirada de água dos chuveiros defeituosos.  Ainda, foram criados programas  para ensinar-se  a comer &#8211; os Vigilantes do Papo e para desintoxicação dos viciados – os Fungólatas Anônimos</p>
<p>O Rei das Sobras se tornara , sem sombra de dúvida, um governante  muito querido. Quando aparecia no balcão, a população reunida cantava a sua conhecida canção, numa espontânea homenagem.  Muitos nobres e ricos comerciantes, reconhecendo seus feitos, começaram a cooperar e alguns , até, passaram até a ter maiores lucros: estava surgindo uma nova classe consumidora, antes na marginalidade.</p>
<p>No entanto, outros permaneciam contrariados e à espreita para atrapalharem quaisquer reformas que ameaçassem  seu <em>status quo</em> .</p>
<p>A  maioria da população mostrava-se, igualmente,  satisfeita com os  sapos cornudos . Se não provocados, não atacavam e só  alguns<em> playboys</em> orgulhosos foram punidos ,pois  ousaram enfrentá-los  (é verdade que muitos os desafiaram sob o efeito de cogumelos psicodélicos, desiludidos que estavam pela perda de privilégios).</p>
<p>Mas, apesar da fantástica melhora de vida, o  grande reformador  sentia-se muito incomodado com a presença daquela força de ocupação.Além do mais , não conseguira eliminar todas as indústrias  poluidoras: aquela produtora de  pasta de enxofre usada  para maquiar pintas de sapos velhos e para as máscaras de Madame Meleca , por exemplo, não fora fechada por ordem direta do General e ele suspeitava de algum tipo de suborno da parte de seus inimigos.</p>
<p>O Rei tinha consciência de que o motivo dado para a invasão era apenas uma desculpa e que, por traz dela, deveria haver alguma segunda intenção; por isso, iniciou reuniões  conspiradoras  com o objetivo de  descobrir as verdadeiras razões.</p>
<p>-         Como está a entrada nos alojamentos deles, Luizinho?</p>
<p>-         Não tem jeito, Rei Alfredo (insistia em chamá-lo rei, apesar da sua objeção). Eles não são muitos, mas estão em todos os lugares! Há boatos de que alguns dos nossos estão nos espionando em troca de algum tipo de benefício. Observam nossos movimentos o tempo todo, especialmente  quando passamos próximos de seu quartel. A Margarida, só  deixam-na entrar lá escoltada e apenas para a limpeza.</p>
<p>-         Margarida, você tem visto alguma coisa diferente?</p>
<p>-         Sabe Majestade (ela também insistia no tratamento real), quando vou lá a impressão é que eles fizeram uma pré-higiene – uma limpeza antes da minha &#8211; para não deixar vestígio de alguma coisa que poderia denunciá-los.  Uma vez, vi um deles jogando o conteúdo de uma lixeira na cachoeira – o que é muito suspeito para quem se diz defensor da pureza das águas- não é mesmo?</p>
<p>-         Certamente, certamente !</p>
<p>-     Além disso &#8211; continuou ela &#8211; várias vezes os peguei mergulhando  perto das manchas de enxofre: que raios de sapos estes que aceitam  essa sujeira tão próxima do local onde se banham?  .</p>
<p>Luizinho completou:</p>
<p>-         Uma coisa  estranha que reparei é que, perto da hora do jantar, eles levam muitos pedregulhos antes de se recolherem, e isso depois de gastarem um bom tempo escolhendo-os com cuidado , lá na beira do lago. </p>
<p>-         É verdade! Quando vou lá, sempre encontro alguns desses seixos largados no chão – acrescentou  Margarida admirada  - O que será que fazem com os outros?</p>
<p>O aprendiz de  soberano parecia distante, tentando encontrar uma lógica para tanta informação esdrúxula.</p>
<p>A faxineira fuxiqueira prolongou-se:</p>
<p>-         Agora, um lugar que eu não posso entrar de jeito nenhum é um dos quartos, de onde sai, por sinal, um cheiro esquisito; no princípio, pensei que ele vinha, vinha&#8230;</p>
<p>-         Diga , diga ! – insistiu  ele</p>
<p>-         Vinha do banheiro, que, aliás, usualmente , tem uma demorada fila de espera; às vezes eles, até discutem quando alguém tenta passar na frente do outro! – brincou ela entre risadinhas e certa vergonha. &#8211;  Mas depois vi que o fedor  vem,mesmo,  é de um cômodo onde eu mal posso chegar perto .</p>
<p>-         Fila para usar o banheiro! Que coisa mais incomum!  – interveio o recém empossado ministro .</p>
<p>-         Vocês têm reparado como eles emagreceram desde que chegaram?- observou o preocupado Rei .</p>
<p>-         Também pudera! Só com muita insistência, eles aceitam comer o que o povo lhes oferece, mesmo que seja uma suculenta minhoca. Será medo de envenenamento?  – perguntou Luizinho</p>
<p>-         É possível, não sei! É possível. Todo esse comportamento é muito excêntrico!  - observou o Rei das Dúvidas .</p>
<p>-     Mas, por outro lado-  aduziu  Margarida-   vocês também notaram que o General   parece  bem mais  encorpado do que quando  chegou  ?  De relance, em seu quarto, eu  peguei-o  namorando os  próprios bíceps  no espelho &#8211; os três! Ele  parece ser um grande narcisista  e deve praticar  uma  musculação lascada!</p>
<p>E deram esse primeiro  encontro por encerrado: era muita suposição para pouco sapo! Mas, antes, a última recomendação:</p>
<p>-         Margarida você precisa investigar mais lá , onde se aquartelaram , ficar de olhos bem abertos para ver se descobre alguma coisa importante. Mas cuidado! Não se arrisque em demasia porque não sabemos bem  com quem estamos lidando. A partir de hoje , vamos marcar uma reunião todos os dias aqui mesmo, ao raiar do sol, para trocarmos informações e tentarmos esclarecer o segredo desses estranhos.</p>
<p>Dr Frog começo fazendo a sua parte: atrás da cortina e com uma luneta, passou a sapear o pouco que se mostrava visível em uma das janelas dos aposentos dos militares. Via o Comandante  indo de lá e para cá, ora rindo, ora conversando com seus subordinados, mas nada mais revelador.</p>
<p>O que acostumou-se a ver , também,  foram as inúmeras visitas ao quartel de seus principais inimigos.Quase sempre  eles entravam sorridentes , muitas vezes carregando presentes, mas , usualmente , saiam carrancudos , despedidos grosseiramente pelos soldados grandalhões , que batiam-lhes  a porta  com violência.</p>
<p>- Se estão tentando um contra ataque, parece que estão se dando mal – divertia-se Alfredo .</p>
<p>As únicas exceções a esse tratamento descortês foi quando da visita de M. Crapaud e do cirurgião Dr.Yvo,que voltaram mais de uma vez  e foram até saudados com  continência militar .</p>
<p>Certo dia, no entanto , pouco antes de dormirem, percebeu que o chefe mostrava-se muito tenso e que um de seus soldados passara defronte à janela carregado em uma padiola.</p>
<p>No dia seguinte, logo ao entardecer, diferentemente  do que  ocorrera até então,o Comandante  determinou que o próprio Alfredo  e seus soldados providenciassem a prisão do proprietário de um restaurante da zona miserável e confiscassem todo o bicarbonato que – já sabiam de antemão &#8211;  lá estava estocado. Levado o prisioneiro para a praça central, o General,em pessoa  , dissolveu-o com seu veneno poderoso, sem qualquer explicação ou qualquer atenção aos protestos reais para que o acusado tivesse um julgamento justo .</p>
<p>No fim da noite, os três conspiradores se reuniram como de regra. Percebendo a tristeza de Frog , Margarida  tratou de iniciar um monólogo  :</p>
<p>- Não fique assim meu Rei!   Não foi culpa sua!  Como você mesmo disse, esses bandoleiros não são nada bonzinhos. Ninguém poderia imaginar que eles aplicassem  uma punição  tão severa para uma infração tão  pequena  . Imagina!  Executa-lo  por vender moscas turbinadas ! . Além disso, o infeliz sabia que você havia proibido esse tipo de negócio e estava se arriscando. Esse episódio demonstra que nós devemos ter muito cuidado com espiões. Ele, certamente , foi vigiado muito tempo antes de descobrirem tudo. Como sabiam que ele tinha tanto bicarbonato escondido? Quem será que o denunciou?  Não sei não, mas, em minha última limpeza, encontrei no quarto do Chifrudão um resto de polpa de maracujá e duas fatias de carambola: acho que esse Narciso acabou entrando na onda estética da Madame Crapaud e não ficaria em nada espantada se viermos a descobrir que ela está trabalhando para os bandidos  em troca de privilégios para seus negócios *. </p>
<p>O Rei da Tristeza , cabisbaixo, permanecia calado. Luizinho interveio na tentativa de provocar um diálogo:</p>
<p>- Sabe, o fato esquisito de ontem é que vi dois soldados vestidos com aventais, luvas e máscaras, jogando o conteúdo de uma balde, no lago, como se fosse algo muito perigoso. Pelo  que sobrou, pude ver que tratava-se de  uma espécie de gelatina  roxa.</p>
<p>Afinal, os dois assessores de conspiração despediram-se, concluindo  que Alfredo deveria ficar a sós para tentar  digerir a tristeza daquele momento sem ninguém por perto . </p>
<p>A elite, desgostosa com o farmacêutico reformador , aproveitou-se do episódio da execução pública para disseminar boatos inquietantes entre a população: ¨o Rei Bêbado foi quem chamara os chifrudos para invadirem o reino, o qual seria  re-urbanizado com a ajuda dos nativos; por isso é que havia tanta cooperação da parte dos bandoleiros nos vários projetos de infra-estrutura; no fim, todos os habitantes seriam dissolvidos e o lago, definitivamente , ocupado. Era essa a calúnia de seus opositores.</p>
<p>Mas tal apreensão, de modo algum, era disseminada, pois a maioria do povo não conseguia enxergar tanta maldade em alguém de aparência tão frágil e tão semelhante a eles mesmos.</p>
<p>* De fato , mais tarde , depois  de livraram-se  dos invasores, descobriu-se, nos pertences de Chifrudão, o livro  Marqueting Pessoal Conquistadores Violentos, da famosa M Crapaud</p>
<p>O tempo passava e a vida continuava sem incidentes e sem maiores pistas, mas Sherlok Frog , em segredo , levava adiante preparativos para descobrir a verdade E, disso, nem mesmo seus mais chegados colaboradores tinham conhecimento.</p>
<p>Mas, não bastassem tantas perguntas sem respostas, certo dia ,o chefe dos cornudos  acabou por introduzir  um novo enigma: em uma das audiências rotineiras, o parlamento e o Rei surpreenderam-se quando o General manifestou a vontade de ajudar na organização da festa da piracema, que deveria acontecer dentro de duas semanas.</p>
<p>Nesse evento anual, casais de peixes saltadores, vindos lá de baixo, subiam várias cachoeiras numa alegre festa nupcial e acabavam por permanecer, alguns dias, para descansarem no lago do Reino antes de seguirem viagem. Eram sempre muito bem recebidos por toda a população, com bandas, bandeirinhas e enfeites, mas a corte, já de há muito,  pouca importância dava ao acontecimento . Nessa parada, os peixes voadores &#8211; assim chamados, pois eram capazes de saltar, pelo ar,  alturas várias vezes maiores que seu próprio tamanho – ensinavam, aos girinos e aos sapos nenês, vários estilos de nado &#8211; e isso os fazia muito simpáticos e bem vindos.</p>
<p>Chifrudão, na mesma  audiência, sugeriu, ainda, que seria interessante acelerar o término do Chuveirão do Rei Alfredo (como passara a ser conhecido) para poderem receber os ilustres visitantes sob uma bonita e refrescante névoa. O parlamento aplaudiu com grande entusiasmo essa fala demagógica. De fato, nada poderia ser mais ¨sapoliticamente ¨ correto do que  um discurso  de conquistadores  que queriam dar a impressão de que estavam ali atendendo a um  <em>elevado desígnio</em> : o  de trazer um pouco de  civilidade a um povo  bárbaro.  Nessas alturas da nossa história , vocês já  captaram que esses saparrões vermelhos  têm muito  é de humanos, não é  mesmo ?</p>
<p><strong>XI UM  PLANO PARA DESMASCARAR OS INVASORES </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Algum tempo depois, no horário da conspiração habitual, o Rei da Impaciência  mostrava-se determinado a executar, de imediato , o que concebera para descobrir  os próximos passos dos invasores.   E, então, resolveu apresentar sua estratégia com ar grave:</p>
<p>- Margarida e Luizinho: tenho trabalhado em um plano e acho que chegou o dia de executá-lo.</p>
<p>Ambos ouviam apreensivos</p>
<p>-   Margarida, ainda hoje, daqui a pouco, você, com mais dois dos nossos &#8211; irá ao alojamento deles, logo antes do jantar; em meu nome, você entregará um presente ao General: esta caixa, aqui. Vejam: dentro tem uma volumosa  rubelita (era uma  grande caixa , toda decorada com fitas amarelas e com o vistoso cristal em seu interior; e continuou explicando o porquê de um brinde  tão exótico:</p>
<p>- Logo depois que você, Luizinho, contou-me que os soldados eram vistos, todos os dias, recolhendo seixos à beira do lago, perguntei a Chifrudão  porque seus subordinados  faziam isso. Ele respondeu- me , com a ironia  de sempre , que sapos de  sua raça apreciavam colecionar pedras  .Então, agora,  vou  dar- lhe uma de lembrança . !</p>
<p>-  Aonde você quer chegar ? – perguntou Margarida</p>
<p>-   Venham ver aqui : esta caixa  tem  rodas ocultas ,  um fundo falso&#8230;  e  eu vou lá dentro !</p>
<p>-  Você deve estar ficando louco  ! De jeito nenhum! &#8211; protestaram os dois.</p>
<p>O melhor amigo do Rei acrescentou:</p>
<p>-   É muito arriscado , você  não tem um plano de fuga,  e além do mais &#8230; este espaço  aí  é tão pequeno que  só caberia &#8230; ( e interrompeu sua fala, percebendo que poderia ofende-lo ).</p>
<p>- Um sapo magricela e  aleijado  &#8230;.  completou Alfredo, sorrindo sutilmente   - Além do mais,  ninguém  supera um  sobra   em rastejamento . Se for preciso sair às pressas, vou deslizar   feito uma  cobra  e nunca   me pegarão</p>
<p>- Mas, diga-me &#8211; continuou  Margarida – afinal, o que  você pretende   fazer aí dentro   ?</p>
<p>-  Olhem:  Oto   fez este mecanismo,  aqui,  que permite movimentá-la  com estas alavancas e tem  orifícios invisíveis  para eu  olhar ao redor .</p>
<p>Alfredo resolveu demonstrar: livrou-se da prótese, enfiou-se na parte de baixo , entrando por de uma das faces laterais, e  fechou-se .</p>
<p>-         Olhem só !  (e começou a dirigir o Frog Móvel, passeando pelo seu aposento) -Eu vejo vocês , mas vocês não me vêm !  Eu também os ouço com clareza!   &#8211; falou entusiasmado, enquanto  movia-se sem qualquer ruído</p>
<p>- E daí  ? Como é que você tem certeza que não vai ser pego dirigindo esse &#8230;treco ? &#8211; perguntou o primeiro ministrinho, entre irritado e preocupado</p>
<p>- De cara , vou ver se, só pela escuta das  conversas, conseguirei  desmascara-los . No entanto, se for necessário explorar o local para descobrir  alguma coisa , farei isso – mas só depois de ter certeza de que todos estão dormindo .   Tenho toda a planta do local  em minha cabeça !  Quero investigar , de modo especial , aquele quarto  onde ninguém entra . Quanto à volta , entendam  o meu esquema &#8211;  e , saindo fora da caixona  – de – surpresas  explanou : -  Margarida, todos os dias  você leva um  carrinho de lixo para a limpeza , não é mesmo ?</p>
<p>- Sim – concordou  com curiosa preocupação  </p>
<p>- Agora , olhe aqui para  esta lixeira construída  pelo  genial  Oto : ela  é idêntica a sua,  mas&#8230; tchan , tchan , tchan !&#8230;  também tem compartimento oculto ! . Você encosta-a  na caixa hermética  , dá três pancadinhas como sinal verde , entro nela  e saímos – eu e você &#8211; felizes para sempre!</p>
<p>- Isso é loucura, meu Rei ! .  E se o Comandante quiser &#8230; por exemplo &#8230;ãhmm&#8230; agradecer o presente, logo que Margarida  entrega-lo . Ele vai descobrir que você não está  no palácio  !  .</p>
<p>- Já pensei nisso , Luizinho e é aí que você entra : você vai ficar aqui , bem em frente a esta janela , vestido com minhas roupas e quando ela entregar a rubelita   vai dizer que eu estou aqui aguardando  para saudá-lo . Você acena sua mão e tudo fica perfeito!</p>
<p>Apesar de muita argumentação contrária , nenhum dos dois conseguiu demover  a obstinação real e tudo foi feito segundo  o que  ele havia planejado .Essa idéia usada foi,aliás ,  providencial , pois foi ela que pôs a descoberto toda a trama dos chifrudos .</p>
<p><strong>XII DESVENDANDO O SEGREDO MACABRO</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Logo que a nervosa faxineira  entregou a caixa de Tróia, Chifrudão aguardou um pouco e , depois de conter a risada , gargalhou com espalhafato ao certificar-se  que ela já estava longe .</p>
<p>Olha, pessoal, o que o   inocente soberano mandou-nos : um pedrão vermelho ! E tudo porque eu expliquei-lhe  que as pedrinhas que vocês pegam lá nas margens do lago são para nossa coleção !( todos riram muito )  Deixe-me ir até a janela que o bobinho está esperando-me para cumprimentá-lo!</p>
<p>O pseudo – pseudo-rei  empalideceu ao responder ao distante aceno : se fosse próximo , o chefão   teria percebido o suor frio escorrendo sob a   sua peruca .</p>
<p>-          Ouçam o que Sua Majestade escreveu-me:</p>
<p>PELA SUA DELICADEZA NO TRATO COM MEU POVO , ENVIAMOS ESTA BELA RUBELITA PARA ENRIQUECER SUA COLEÇÃO . AFETUOSAMENTE  </p>
<p>REI ALFREDO .</p>
<p>( Mais zombarias de todos os presentes .)</p>
<p>O Coronel comentou :</p>
<p>-         O senhor tornou –se quase tão popular quanto o próprio Rei. Também pudera ! Ajudar a criar berçários é uma das coisas que mais toca o coração do povo !</p>
<p>-         Sim , sim , sem dúvida . E com toda esta nossa revolução social, a população está aumentando ! Quantos novos girinos e bebês foram contados até agora ?</p>
<p>-         Mais de 2000 – respondeu .</p>
<p>-         E amanhã , é o grande dia da inauguração do Chuveirão !  Sabe, este reizinho é muito esperto ! Pena que terei de descartá-lo em breve .  (o polegar para cima, da pata sobressalente, confirmou essa intenção) &#8211; Aliás, quando está prevista a chegada dos  amigos peixes ?</p>
<p>-         Segundo os entendidos , depois de amanhã ,General .  E serão milhares ! A banda está ensaiando as músicas de recepção e nós, mesmo, estamos ajudando a enfeitarem todas as margens .</p>
<p>-         Excelente ! Tudo vai como  planejado . A névoa vai dar um clima todo especial à  recepção !- riu debochadamente  (os puxa &#8211; sacos acompanhando)</p>
<p>-         Mas  atenção : ninguém chegue perto de qualquer alimento suspeito ! Basta o que a mosca carregada de bicarbonato fez com aquele imbecil .É verdade que graças à indisciplina do guloso  descobrimos , afinal,o que nos fazia mal lá em baixo : este maldito pó ! Lembrem- se : não queremos qualquer rebelião; somos mais fortes,  mas eles são milhares e nós, apenas 30 .</p>
<p>-         Vinte e nove– cochichou seu imediato</p>
<p>-         Vinte e nove – corrigiu-se Chifrudão</p>
<p>O Rei –Espião  ouviu, com  clareza,  o que acabara de ser dito : a conclusão óbvia era que um deles havia morrido – e a mosca ingerida  tinha a ver com essa morte</p>
<p>-         Mas onde esconderam o corpanzil  daquele  soldado ? Será que o odor  que a Margarida sentiu tem a ver com o de um cadáver ? Parece  que o excesso de bicarbonato  que Madame Crapaud e  os açougues despejam nas águas da cachoeira   causa  doenças  entre eles ! – Alfredo  pensava com seus botões</p>
<p>Também ficou claro que algo estava para acontecer no dia da chegada dos voadores.</p>
<p>-         Mas o quê ? &#8211; essa pergunta martelava seus neurônios reais .</p>
<p>-         Coloquem esse treco logo ali e vamos comer – determinou o chefão.</p>
<p>-         Ah, a propósito , Comandante ! – lembrou- lhe o coronel &#8211; O tal Barão e a Rainha insistem em falar com o senhor o quanto antes  . Dizem que têm uma proposta a fazer .</p>
<p>-         Uma proposta?  Interessante ! Amanhã vou até o calabouço .</p>
<p>O <em>esperto  perneta</em> fez outra importante descoberta com os diálogos que se seguiram :</p>
<p>- Sargento : distribua as pedras e as canecas.</p>
<p>Nesse momento , a porta do quarto proibido foi aberta  e foi quando o espião-sardinha pôde , ele mesmo,  sentir o  cheiro esquisito  a que Margarida se referira Mas,  muito apertadinho e com o campo de visão limitado, não via muita coisa .Contudo , ele conseguiu  perceber, pelo ruído do estalejar, que as canecas estavam sendo preenchidas por   seixos.</p>
<p>Depois disso ,  ouviu  a estranhíssimo ordem :</p>
<p>- Um , dois, três : engolir !</p>
<p>O som da deglutição ruidosa e simultânea , seguido de muitos <em>urgs</em>, confirmou o que pensou ter sido , no início , um erro de compreensão : eles, realmente  , tinham engolido as tais pedrinhas aquelas que , todos os dias , escolhiam com cuidado! </p>
<p>-  Vamos lá , pessoal! Agora, sargento: as nossas rações e  água , muita água!- foi a última determinação.</p>
<p>Comiam esbaforidos, com forte barulho de mastigação e grunhidos horríveis.  Ele tentava entender , sem conseguir , o  que conversavam com as bocas cheias. Decidiu, então, esperar todos dormirem para mover-se com segurança.  Neste entre – tempo, em seu esconderijo, esforçava-se para compreender o porquê de tanto entusiasmo com a piracema e com o aumento da natalidade .</p>
<p>- Esses malditos planejam  capturar e escravizar  os amigos peixes!  E talvez, também , nossos filhos! Sim! Por isso, tanto empenho nas construções de  berçários: querem escravos jovens que nunca saberão o que é ser livre! – seu  coração libertário  pulsava forte quando se tratava de  escravidão, como o dos seus antepassados  ianques.</p>
<p>- Mas e as pedras? Imagina só: Eles comem pedras! Não é à toa que estão emagrecendo! Mas como será&#8230; Como será que eles&#8230; Ah! Cólicas !  As filas do banheiro!   É por isso que eles demoram tanto para escolherem as tais pedrinhas; elas são redondinhas e têm mais ou menos sempre o mesmo tamanho! – Imagine se meu projeto  de emagrecimento fosse às custas dessas pedrinhas?! Os cirurgiões de redução de papos desapareceriam , mas   outros iriam ter muito , mas muuuuito trabalho ! &#8211; Ele teve que colocar a mão em sua própria boca para conter uma boa risada  .</p>
<p>Mas seu estado de espírito mudou  para o de intensa apreensão  quando decidiu ter chegado o momento de inspecionar o ambiente .O silencio imediato  pós &#8211; refeição havia sido substituído por uma bem vinda sinfonia de roncos:  qualquer interrupção da barulheira denunciaria  alguém despertando.</p>
<p>Movendo-se com cuidado, chegou  ao cômodo  misterioso e, rastejando, entrou rapidamente Colocou  seus óculos de visão diurna (que têm lentes escuras) e quando conseguiu enxergar com nitidez, arrepiou-se todo:</p>
<p>-         Meu Deus&#8230;! – sussurrou balbuciando ; Alfredo encontrara muitos peixes mortos desidratados, dependurados por  ganchos pontiagudos enfiados em suas barbatanas  caudais – o cheiro esquisito vinha deles.</p>
<p>Mas, o que o deixou , ainda mais, aterrorizado foi uma outra visão  :  no fundo da sala, bem escondidos-  e também enganchados -  girinos   e  sapinhos-nenês  de papo amarelo-  todos secos  .</p>
<p>-         Oh, não!</p>
<p>Nesse instante, sentiu um forte calafrio  e vieram-lhe  à mente instantâneos de diferentes imagens ,  numa rápida seqüência, lembranças de cenas a que não dera muito atenção e que,agora,  como peças encaixadas de um quebra cabeça,   mostravam quem eram e o que queriam aqueles vermelhos com chifres :</p>
<p>-         Os dentes caninos! As garras pontiagudas! : eles são carnívoros!</p>
<p>-           Eles vêem atrás dos peixes voadores e por isso nos invadiram &#8211; para atacarem- nos , aqui, em seu local de descanso &#8211; o  lago!</p>
<p>-         Os elogios ao aumento da natalidade a ajuda na construção de berçários : eles também vêem atrás dos nossos bebês; são canibais!</p>
<p>-         Os sapinhos dependurados  naquele  açougue improvisado : são sapinhos que sofreram paralisia pela Botulina  e que  foram levados ate eles pela correnteza  !  </p>
<p>-          O emagrecimento dos invasores: eles estão segurando a  fome comendo pedrinhas e trouxeram uma grande reserva de comida seca para ficarem muito tempo entre nós sem levantarem suspeitas do seu canibalismo; Dr Sapan Hussein &#8211; que Batráquia atirou cachoeira abaixo &#8211; deve ter sido quem os ensinou a desidratar peixes e sapos! Realmente , esses alimentos secos podem  ficar armazenados por muito tempo sem se estragarem !</p>
<p>-         Eles têm um defeito físico  semelhante aos de  sapinhos nascidos nos locais  com águas contaminadas: o terceiro braço! Eles são sapos mutantes ! Surgiram por ação de algum  poluente que nós mesmos jogávamos pela cachoeira! É provável que seja  enxofre ! Eles adoram  águas ácidas de enxofre !     </p>
<p>Por vários segundos, ele desligara-se, totalmente ,  de si mesmo. E, neste estado auto hipnótico  , acabou  por apoiar-se  em um  daqueles<em> bacalhaus</em>  , derrubando-o  . O guarda mais próximo despertou e resolveu investigar.</p>
<p>O chifrudo estranhou a presença da caixa da rubelita  fora do lugar e , antes de entrar  tratou de afasta-la – o que viria a complicar, em muito, a fuga do  pequeno James Bond .</p>
<p>Alfredo  buscou  esconder-se  em frente a uma janela,  agarrando-se em um dos ganchos, pela pata , de ponta cabeça, tentando assumir  o  mesmo perfil de um daqueles peixes dependurados: contava com a luz do sol contra os olhos do soldado, pois esses alienígenas de  pupilas fendidas, enxergavam muito mal, mesmo com  pouca claridade.  .</p>
<p>Imóvel, nosso herói  observava o desconfiado soldado vir em sua direção, contendo a  respiração e com  medo de que  até as batidas  de seu coração  acelerado pudessem estar audíveis  .  Mas, de repente &#8211; e por pura sorte &#8211; o carnívoro  pôs as mãos em seu barrigão, fazendo uma carranca : as cólicas das pedrinhas fizeram-no pular para o banheiro., ligeirinho.</p>
<p>O dublê  de peixe morto   suspirou aliviado, pegou um seixo  perdido no chão e deu-lhe um beijo!</p>
<p>Aguardou o passar do dia &#8211; sem dormir e com os pensamentos velozes como asas de beija flor  - coordenando ,ao mesmo tempo ,dois intentos : um, para escapar dali e outro, para livrar o reino dos conquistadores o mais rapidamente   possível.</p>
<p>Ao entardecer, Margarida veio para a faxina  e , logo ,  tratou de chegar  perto do <em>presente de grego</em> , disfarçando seu nervosismo com dificuldade . Mas nada!  Percebeu,  pelas pré-combinadas pancadinhas, que Alfredo não estava onde deveria  e, assim, ficou ainda mais perturbada !  De repente, ouviu as tais batidas vindas da porta do quarto proibido: era ele sinalizando onde tinha se enfiado.</p>
<p>Nesta hora crítica, a esperta faxineira demonstrou grande presença de espírito: estacionou  seu  carrinho de lixo bem próximo  à porta do resgate e, afastando-se, começou a varrer freneticamente   ; a certa distância, simulou um extravagante  ataque histérico &#8211; epiléptico:</p>
<p>-         Chiiiiiiii&#8230;. RRRUUPITUMMM, BAM , BAM, BAM BAM ! gritou com toda a força;  em seguida , jogando-se no chão, começou  a pular, como um sapo de circo, rodopiando no ar. A coreografia não terminou aí : principiou a cantar uma versão própria do   hino nacional .</p>
<p>-         EU SOU UMA SAPA, OH CHICA BUMBA, CHICA BUMBA! EU SOU UMA CHICA, OH SAPA BUMBA SAPA BUMBA!</p>
<p>-         EU SOU UMA BUMBA, OH CHICA CHACA, CHICA CHACA!  Chiiiiiiii&#8230;. RRRUUPITUMMM. BAM, BAM, BAM, BAM!</p>
<p>E voltou aos malabarismos sob os olhares  espantados de toda a tropa,  que , aliás já  se perfilara  em frente ao banheiro.</p>
<p>E lá veio o General Nervosão.</p>
<p>- Mas o que e que está acontecendo aqui!- gritou com raiva (a mão paralisada acordara e também parecia ameaçadora) Quando Margarida percebeu que o Sobra conseguira entrar nalixeira sem ser notado,  simulou uma breve desmaio , ou , para usar um termo  antigo , mas muito apropriado a essa história, simulou  uma  sapituca .</p>
<p>-  Oh, o que foi que aconteceu?  &#8211; perguntou a fingida</p>
<p>-  Eu é que pergunto senhorita?</p>
<p>- Ah&#8230; Eu tive de novo&#8230; Eu tive de novo?</p>
<p>- Teve o que senhorita?</p>
<p>- Um ataque. Perdão, perdão, perdão!. Hoje acordei tarde e não pude tomar meus remédios.</p>
<p>- É melhor você ir embora! E mande outra em seu lugar!- ordenou ele</p>
<p>Era tudo o que Fernanda Montenegro Anfíbia  queria ouvir. Quando alcançaram ao palácio , a Rainha- do – Teatro   e o Rei- por-Acaso  abraçaram-se com ternura. Chegara a hora de confessarem  o que um sentia pelo outro</p>
<p>Mas foi um momento de carícias muito breve, pois o tempo restante para impedir um massacre era demasiadamente   curto.</p>
<p>-  Margarida, agora vá embora e venha no fim da noite que temos  muito que conversar.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>  XIII- GUERRA QUÍMICA  </strong></p>
<p>Quando entrou no aposento real, Luizinho aguardava-o preocupado:</p>
<p>-         Meu Rei! Puxa, pensei que algo tinha dado errado!  Não consegui dormir o dia todo!</p>
<p>Frog deu ao diálogo um tom de comando:</p>
<p>-    Estou indo para a inauguração do Chuveirão, pois o General deve estar me esperando.  Você não vai comigo e eu darei uma desculpa qualquer. A sua missão  é transferir  para cá &#8211; e sem que ninguém perceba &#8211; todo o bicarbonato que nós confiscamos  até hoje   e coloc&#8230;</p>
<p>-         Não temos mais nada – interrompeu-o . Esta semana ,jogamos tudo o que havia no depósito  por ordem direta do Comandante . Eu não quis informá-lo disso porque achei essa medida até muito conveniente e&#8230; &#8211; Luizinho foi silenciando e, ao mesmo tempo,</p>
<p>alentecendo sua fala, ao perceber a frustração de seu amigo.</p>
<p>Depois de alguns segundos de ausência, o Rei das Estratégias  retornou à Terra.</p>
<p>-     Procure o Zeca  !  O Zeca Sapeca, o dono das MOSCAS GRILL, lá do  bairro!</p>
<p>-     Aquele restaurante nojento que&#8230;</p>
<p>-         Sim, sim ! Ele ainda deve ter esse ingrediente  escondido e,com certeza,  sabe quem mais  o esconde ! .  E disparou a falar com excitação:</p>
<p>-         Diga que é uma emergência e que não tem nada a ver com qualquer tipo de punição.  Ele é meu amigo e eu devo muito a ele; foi Sapeca  que ,muitas vezes,tirou-me da rua e alimentou -me. Explique -lhe que executaram o dono daquele restaurante não porque o General estava preocupado com o que comemos, mas porque bicarbonato parece ser a única ameaça contra eles! O soldado que morreu comeu uma daquelas moscas gaseificadas  ! Por isso nem chegaram perto da casa do condenado e fizeram com que nós mesmos confiscássemos todo o pó ! Pela primeira vez, eles se sentiram ameaçados! Consiga uma grande  quantidade – o suficiente para encher uma carruagem &#8211; e  traga- a  aqui com a maior discrição possível ! Primeiro , devo fazer alguns testes , mas estou quase certo que, de algum modo,  o bicarbonato é letal para eles! Diga que eu preciso desta arma contra estes bandidos  e que ela é a nossa única salvação: eles pretendem  matar-nos a todos, amanhã, na chegada dos peixes voadores!</p>
<p>-         O quê!- exclamou assustado.</p>
<p>-         Ao amanhecer volte aqui que eu explico os detalhes. Agora, vá !  Rápido!</p>
<p>Meio confuso com tudo aquilo que ouvira, foi cumprir sua missão, levando consigo Margarida, para reforçar o processo de convencimento do Zeca.</p>
<p>Na festa de inauguração, Chifrudão tomou a palavra como lhe era o habitual .Depois de muitos elogios hipócritas, o usual exibicionismo e muitas tapas no membro Id &#8211; que sempre indicava se o que ele dizia era verdade ou não &#8211;  o General falou o que o Rei queria ouvir para confirmar qual seria a hora H .</p>
<p>- E amanhã, ao entardecer, será um dia de grande alegria para todos nós: os seus&#8230; os nossos amigos  voadores chegarão ao  lago!   (o povo, ingenuamente , o aplaudia).</p>
<p>-         Decidimos que todas as crianças ficarão ao longo das margens :  rostos infantis, afinal, recepcionam melhor do que os de adultos, não é mesmo?   (mais aplausos )</p>
<p>Alfredo a muito custo conseguia disfarçar sua raiva por tamanho cinismo</p>
<p>-         Todos os adultos deverão  ficar reunidos  no último berçário, próximo ao precipício  e eu e seu Rei estaremos  no salão da trono orientando  toda a cerimônia e saudando os visitantes pelos auto falantes.</p>
<p>- Quer dizer que a trama covarde  era esta! – ruminava Dr Frog &#8211; Começariam a atacar por detrás, a partir da cachoeira de baixo, devorando os sapos- bebês, as crianças e os peixes  retardatários por primeiro; em seguida,  iriam aos berçários – aqüíferos pegar os girinos  - e isso tudo sem  qualquer contra-ataque, pois os adultos machos estariam confinados na área defronte ao precipício – prontos para serem empurrados.</p>
<p>Depois do palavreado  enganador, a mão sobressalente  adiantou-se em cortar a fita de inauguração (ao que O Azedão reagiu com a irritação de praxe ): uma fina névoa cobriu, então, toda a extensão do reino e o povo aplaudiu demorada e emotivamente .</p>
<p>Voltando do evento muito ansioso, o Rei só se acalmou ao ver seus amigos fazerem o sinal OK de cima da carruagem  que acabara de regressar.</p>
<p>Reuniram-se na primeira claridade do sol  , e Alfredo detalhou-lhes tudo o que vira e ouvira em sua  arriscada missão .</p>
<p>- Deixei todo o pó lá mesmo, na garage, dentro da carruagem – que está toda abarrotada &#8211; e trouxe um pouco para os seus testes.- informou Luizinho</p>
<p>- Muito bem! Na verdade , já iniciei uma parte deles: logo que voltei da solenidade , pedi para um dos nossos comprar folhas de repolho roxo.</p>
<p>-         Repolho roxo?! Para quê?- quis saber Margarida.</p>
<p>-         A folha desse repolho mede o grau de acidez de qualquer coisa; quando fica vermelha é porque  ela tocou em algo  muito ácido &#8211; como o limão- mas  fica azul se  entrar em contato com  bicarbonato; no entanto, ela permanece roxa se tratar-se de substancia neutra como a água pura. Por exemplo ,veja , em minha pele (o professor de química  encostou um pedaço da folha de repolho ): ela fica discretamente  azul , pois  nossa pele  é ligeiramente alcalina. Mas, agora, observe o que aconteceu quando eu  encostei-a   nas costas  do  guarda, aí de  fora – sem ele perceber, é claro !: cor vermelha intensa! Os invasores são azedos!   &#8211; exclamou  com entusiasmo de pesquisador que acabara de resolver um problema.</p>
<p>-         Bom, ainda bem que eu não precisei beijar nenhum deles – brincou Luizinho- Mas e daí, meu Rei?</p>
<p>-         Acho que o bicarbonato, ao neutralizar a  acidez de seus corpos, pode fazer muito mal à sua saúde .</p>
<p>-         E até matá-los?- questionou Margarida</p>
<p>-         E até matá-los- e perguntou  a ambos :</p>
<p>-         Vocês estão preparados para trabalharmos  dia adentro?</p>
<p>-         Nem devia  perguntar!–  responderam  em conjunto .</p>
<p>-         Preciso  conseguir um pouco do veneno das glândulas desses inimigos. Eu tenho uma intuição: Luizinho, você  se lembra de ter visso soldados jogando uma gosma de cor arroxeada cachoeira abaixo?</p>
<p>-         Sim</p>
<p>-         Pois bem: somos de cor verde e amarela e o veneno deles é azul. Certo?  Quando os chifrudos dissolveram o Rei Batráquio e alguns outros cidadãos,  o que restou foi sempre uma gosma verde: é mistura do amarelo de nossa pele com o azul da secreção  deles. Eles têm aquele papão vermelho, não é verdade?  . Se, por um motivo qualquer, o próprio veneno azul os dissolver &#8211; azul mais vermelho igual a roxo – compreenderam ?</p>
<p>-         Você está nos dizendo que aquele soldado foi dissolvido pelo próprio veneno e virou a tal gosma roxa que Luizinho  viu ?- colocou  Margarida .</p>
<p>-         É uma possibilidade.Veja: as enzimas  venenosas deles podem estar inativas enquanto estão sob a sua pele azeda, mas poderão ficar ativas e corrosivas-quando em contato com o bicarbonato!</p>
<p>-         Bom , não entendi  muita coisa; mas como é que eu vou  arrumar um pouco desse suco?- perguntou Luizinho  </p>
<p>-         Esse é o problema: eu não sei! – respondeu.  </p>
<p>-         Deixa comigo!  . O trabalho intelectual é seu, o meu, força bruta – replicou o ministro-soldado .</p>
<p>-         A propósito – acrescentou  sua fã  numero um  -o Chuveirão ficou uma coisa linda e todo mundo está encantado com o seu Rei!</p>
<p>Luizinho saiu só , prometendo voltar com o veneno em uma hora. Foi  para o  antigo sertão,   procurar ajuda com alguns amigos .</p>
<p>Explicou  a três deles &#8211; Carlão, Hulk ( dois ex sapos &#8211; bombeiros) e a Mustafá,  um anfíbio  libanês vendedor de   quinquilharias,  que , muitas vezes , socorrera  o  Chica Bumba  – o que Alfredo tinha em mente . Entenderam  menos do que ele , mas só o suficiente para serem úteis : tinham que ordenhar    um dos soldados alienígenas. O escolhido foi  aquele que ficava guardando o precipício &#8211; ou melhor, o que dormia em seu posto.</p>
<p>Arrumaram um pequeno balde, um funil , uma garrafa , cordas,luvas, óculos escuros e –idéia de Mustafá-  um espelho ; e lá foi  o quarteto para a sua vaca vermelha, já com  sol alto.</p>
<p>Inicialmente , tentaram uma abordagem cuidadosa, escondendo-se atrás de um mato grosso;o soldado (também de óculos ray-ban),  encostara-se  em uma pedra para uma soneca e roncava muito, dormindo em meio à névoa refrescante nunca antes existente  naquelas paragens; Luizinho, com a mão enluvada, por de trás das folhagens, estendeu o  braço e começou a fazer uma agradável coceira no ouvido do bandoleiro (que sorria de prazer); em seguida, tentou apertar sua parótida  venenosa com delicadeza. Mas, qual o quê !  Era preciso muito mais força .Deixa comigo – sussurrou Carlão; ele deu  seu apertão, que, no entanto, teve como único efeito interromper os roncos, sem qualquer sinal da secreção azul.</p>
<p>-         Agora é minha vez &#8211; cochichou Hulk, o maior e o  mais forte da turma.</p>
<p>Sapecou-lhe uma desajeitada garrafada  no cabeção  do guarda , o que atirou seus óculos  para longe , e  o fez despertar  assustado, sem entender o que lhe havia acontecido .</p>
<p>Foi a vez de Mustafá entrar em cena . Do outro lado, com o espelho, passou a jogar luz nos olhos do grandalhão, cegando-o completamente. Sentindo-se invisível, Hulk saiu de trás da matinha  e começou uma repreensão, imitando a voz  forte do sargento .</p>
<p>-         Soldado!</p>
<p>-         Sim senhor! &#8211; respondeu ele, desajeitado e imóvel, na posição de sentido.</p>
<p>-         Dormindo em seu posto?!</p>
<p>-         Sim, senhor – Quero dizer, não senhor!</p>
<p>-         Você conhece  regulamento?</p>
<p>-         Sim senhor!</p>
<p>Hulk pegou  os óculos ,tirou-lhe as lentes, com agilidade , e entregou-o ao seu comandado.</p>
<p>-         Coloque seu visor diurno ! Agora está enxergando, não está?</p>
<p>-         Bem&#8230;</p>
<p>-         Está, não está? ! – gritou o ex  bombeiro  em tom de intimidação</p>
<p>-         Sim senhor!</p>
<p>-         Para o comando central! Marchando! Esquerda, volver! Um, dois, três! Um dois três!  Direita, volver! Em frente!  Um, dois, três&#8230;</p>
<p>E lá foi o panaca, precipício abaixo, desmaiando com a grande queda : Hulk o havia guiado para o vazio ;  através de cordas, os  três desceram para a ordenha.</p>
<p>Enquanto Luizinho e seus comparsas  trabalhavam na coleta do veneno, o casal enamorado  fazia algumas experiências com o vigia da porta do aposento real .</p>
<p>- Por favor, senhor guarda: o  Rei  não esta conseguindo dormir por secura da pele. O senhor poderia ajudar-me  a rodar sua cadeira giratória , enquanto eu pulverizo esta loção  umedecedora   ?  – pediu , com candura,  a   faxineira atriz  .</p>
<p>Alfredo havia preparado dois <em>borrifadores</em>: no primeiro havia um pouco de bicarbonato diluído  e, no outro, suco de limão .A idéia era fazer com que um pouco das gotículas do vaporizador com bicarbonato fosse disfarçadamente  desviado para as glândulas azuis da cobaia ; se acontecesse alguma reação que indicasse que a auto &#8211; dissolução estaria sendo ativada, o cítrico  interromperia a reação.</p>
<p>E a experimento foi um sucesso!   Quando as primeiras borrifadas atingiram  o soldado, ele começou a sentir uma forte queimação local, o que Margarida interrompeu, na mesma hora , com o  spray do  antídoto  .  </p>
<p>- Pode deixar, pode deixar!  O senhor deve ser alérgico a esta  medicação !  -lamentou  ela hipocritamente .</p>
<p>Quando o <em>vaqueiro</em>  retornou com o precioso líquido  azul, , em pleno sol do meio dia,o  Rei da Bioquímica  quase tinha  concluído sua estratégia. Só  faltava um teste  adicional : colocou uma pequena flor dentro de um frasco com as enzimas azuis  e nada aconteceu ; mas quando juntou o bicarbonato , em segundos, ela  foi  corroída por inteiro  !</p>
<p>Margarida e Luizinho ficaram admirados e , então, compreenderam  tudo.</p>
<p>- Leve a carruagem com todo o pó  para o Chuveirão. Quando você, o Hulk, o Carlão e o Mustafá sentirem  que não serão incomodados e que a operação poderá ser executada, coloquem este concentrado de urucum  na bomba de alimentação do Chuveirão: a névoa vai ficar de cor avermelhada e esse sinal vai assegurar-me que vocês estão no controle da situação.  Vou dizer que isso é nossa homenagem a eles, visitantes  vermelhos .  Nossos amigos peixes  deverão chegar  daqui a algumas horas e, aí,  todos  os chifrudos deverão estar  sob a névoa junto com todo   povo  . Vou dar o comando para misturar o bicarbonato à água lá do janelão , pelo alto falante. A senha vai ser esta : Viva o Rei Alfredo, o Rei Chica Bumba, Chica Bumba ; nesse momento , vocês deverão interromper o urucum  e jogar toda a carga de bicarbonato misturado a este corante amarelo de  caquis silvestres : a cor amarela indicará que a névoa está com  veneno anti –mutantes. Eles vão ver como se faz uma guerra química ! &#8211; concluiu o mais farmacêutico dos reis &#8211; Margarida, você fica por perto?</p>
<p>-         E precisa pedir ?</p>
<p>-         Vá logo, Luizinho!  Mas espere! Leve estes quatro <em>borrifadores </em>com você: eles têm bicarbonato concentrado e servirão como armas, caso algum resolva enfrentá-los Lembrem-se: atirem bem em suas glândulas parótidas !</p>
<p>-         E quanto ao General? – colocou  a preocupada namorada &#8211;  Ele estará com você ,falando ao microfone do palácio, e, portanto, não vai ficar ao alcance do chuvisco !</p>
<p>-         Esse aí, deixa que eu mesmo dou conta! Agora, vão!</p>
<p><strong>XIV O GRANDE DIA </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Chifrudão estava cheio de receios  e seus subordinados  haviam  chegado ao auge da fome. A idéia de comer peixes frescos, suculentos  girinos e jovens sapinhos ,depois de tanta ração desidratada  e  tantas pedrinhas- tira- fome ,deixava a situação de difícil de controle. Mas  ele  admoestava a tropa:</p>
<p>- Quem estragar meus planos vai se haver comigo !-  ameaçava-os.</p>
<p>Logo que os primeiros visitantes foram avistados   vencendo a cachoeira de baixo , o Imperador  dirigiu-se  ao salão do trono, vestido com  solenidade, usando, inclusive , a <em>peruca coroada</em>, que antes abandonara. Lá , o diabólico canibal  observava tudo pelo janelão  e, com o microfone ligado , definia onde todos deveriam  posicionar-se .</p>
<p>- Vejam só! Quanta pompa e circunstância ! Até colocou vossa coroa cabeluda   - disse   em tom sarcástico, ao interromper a transmissão , por breves momentos   ; em seguida, retomando os comandos , voltou a   insistir:</p>
<p>- Soldados, fiquem atrás!  . Deixem as crianças bem à vista dos  visitantes!</p>
<p>Ao tentar iniciar um  diálogo com Alfredo, o cururu vermelho  foi interrompido   por batidas na porta : era  um  dos seus segurando uma corda  por uma das extremidades .     </p>
<p>-         O que é que você está fazendo aqui?!  – vociferou  o manda-chuva  contrariado. Eu não falei que queria todos vocês lá, no meio do povo!</p>
<p>-         General, é o Chuveirão!  Parou de funcionar!  Prendemos dois sujeitos sabotando-o!</p>
<p>Frog  olhou pela janela e, confirmando a ausência da névoa, arregalou os olhos; seu coração batia tão forte e rápido que parecia querer sair pela boca !</p>
<p>O soldado, então,  puxou os meliantes  para dentro da sala    .</p>
<p>O Rei ficou um pouco mais tranqüilo  ao constatar que os detidos não eram nenhum  do <em>quarteto do pó</em> .</p>
<p>Identificou  ambos de  imediato  :</p>
<p>- Eu conheço vocês: trabalham para o Conde Shiitake &#8211; o sócio da Madame Crapaud  e construtor de pirâmides exotéricas ! – afirmou , decifrando, de saída, o motivo para o ataque.</p>
<p>-         Nós só estávamos cumprindo ordens! Eles  não gostam de você,   e mandaram estragar a sua festa.</p>
<p>-   Levo-os para a prisão e, mais tarde ,  verei  o que faço  - ordenou o  chefe dos  dentuços .  </p>
<p>      E agora, dê o fora daqui, imediatamente  !- gritou ao soldado, reduzindo a importância do ocorrido</p>
<p>-          Vamos seguir nossa festa , mesmo sem o vosso Chuveirão, Majestade</p>
<p>O soberano  teve uma daquelas  ausências, como quando descobrira os peixes desidratados no depósito.</p>
<p>-         O que é que eu  faço agora? &#8211; repetia para si mesmo.</p>
<p>Colocou as mãos nos bolsos e, confirmando que estavam cheios de bicarbonato, teve a seguinte idéia : tentaria atrair o General para perto do parapeito do terraço; iria se agarrar a ele para poder esfregar-lhe  o pó diretamente  em suas glândulas; começaria uma gritaria, chamando a atenção de seus amigos, e tentaria joga-lo cachoeira abaixo; vendo  esta briga, talvez, Luizinho e seus amigos partissem para um combate corpo- a &#8211; corpo contra a os soldados,  usando os   <em>sprays</em> .</p>
<p>A partir da rápida definição do plano de ataque , passou  a conversar com o Comandante ,  tal como fazem  entrevistadores e entrevistados em  programas de TV: nenhum olhava para o outro, mas para um terceiro lugar &#8211; no caso-  para as redondezas da cachoeira de baixo, por onde  vários  peixes já haviam passado  .</p>
<p>-         Sabe, meu caro Monarca : devo confessar que tenho grande admiração por você (e falou isso , pela primeira vez , sem a ironia habitual ; o dedão da mão sobressalente também aprovou o comentário)- Decisões  muito acertadas, idéias  inteligentes para melhorar a vida de seu povo , muita coragem para enfrentar seus inimigos políticos e calma bastante  ao resolver problemas , mas &#8230;</p>
<p>-         Mas o quê? – perguntou, antecipando algum golpe baixo.</p>
<p>-         Tenho que comunica-lo que, desafortunadamente, hoje terei de eliminá-lo.</p>
<p>Nosso herói permanecia silencioso e imperturbável .</p>
<p>-         Não vai dizer nada?  &#8211; perguntou o General</p>
<p>-         Dizer o quê?  : não faça isso, por favor !? Destruir o inimigo é a lógica da guerra, não é mesmo?– falou  saindo  do janelão e aproximando-se da porta do terraço.</p>
<p>-         Você é mesmo admirável! (o quinto membro , desimpedido , manifestou-se de novo, concordando com esse elogio) Sabe: antes de destruí-lo quero contar-lhe algo sobre nós, os chifrudos.  Somos uma espécie nova, existimos há menos de cinco anos.</p>
<p>-         Se você vai dizer que   vocês  são sapos mutantes ,  não  vai contar-me nenhuma novidade – interrompeu o discurso pretensioso de seu oponente</p>
<p>-         Mas como você  sabia  disso ! -  exclamou espantado, agora,  olhando não mais para a multidão  , mas diretamente  para este Poiré  anfíbio ( de quem até  Aghata Christie se orgulharia !) – Na verdade,  há dúvidas de como surgimos; segundo alguns estudiosos, somos  produto de uma mutação&#8230; talvez, provocada por algum poluente ambiental à base de enxofre! Não é irônico? – voltou a sorrir com o deboche habitual  – E você sempre combateu a poluição das águas !</p>
<p>O mutante  sulfúrico achegou-se,  tentando cumprimentar-lhe seu poder dedutivo; mas o Rei esquivou-se e avançou mais alguns pulos em direção ao terraço.   </p>
<p>O chefe continuou  sua arenga com solenidade:</p>
<p>-         Como uma raça nova, temos hábitos e valores diferentes de qualquer outra que você conheça.</p>
<p>-         Canibalismo, por exemplo – falou ele sem perder a dignidade real.</p>
<p>O General, outra vez , aproximou-se com indisfarçável ar de admiração ;de novo , Alfredo  afastou – se para  atrai -lo ao ponto certo do  seu ¨ataque  bicarbonatado¨.</p>
<p>- Você não me deixa de surpreender até o último minuto! Como descobriu?</p>
<p>- Estes caninos avantajados, as garras&#8230; Além disso, sei que você tem peixes desidratados em seus mantimentos – que permitem alimentá-los por longos períodos sem precisarem das nossas&#8230; proteínas . Por acaso, foi Dr Sapan Ucem quem ensinou-lhes  esta técnica de conservação?</p>
<p>-         É espantoso! Você deveria ter seguido a carreira de detetive!  De fato: foi Dr. Sapan – ou melhor, hoje ele deveria se chamar Dr. Sopão – se fosse possível um sapo sobreviver em estado líquido! (falou com riso sardônico ) &#8211;  Mas vamos  ao menu principal: gostaria de comunicar-lhe  que vou devorá-lo . E sabe de umas coisa  ? Isso deveria deixa-lo orgulhoso ! – afirmou  com seu deboche- marca- registrada.  Entenda:  só comemos sapos adultos como você por uma questão ritual,pois  acreditamos que, ao comer um sábio,  adquirimos sua sabedoria. Dissolve-lo com meu veneno seria uma humilhação a que não vou submete-lo! – acrescentou  avançando para ficar lado a lado do seu ídolo comestível .</p>
<p>Frog preparava o golpe iminente e , por isso , perguntou-lhe :</p>
<p>-         Posso dar-lhe um abraço de despedida?Apesar de tudo, tenho que admitir que o senhor fez muito pelo meu povo – disse  com as mãos  cheias de pó e escondidas dentro dos bolsos .</p>
<p>O chefe dos canibais ficou completamente  desenxabido , e só a  pata desinibida  aquiesceu , chamando-o para  um afetuoso cumprimento . Entretanto, no último segundo, a névoa recomeçou como antes , logo adquirindo , a cor avermelhada. O povo  aplaudiu e ovacionou o feito.  O Rei do Bicarbonato  desarmou-se e  sorriu satisfeito,  entrando , novamente, no salão.</p>
<p>-         Que genial idéia a sua ! –  gritou entusiasmado , rindo , primeira vez, todos os dentes afiados .- Uma homenagem  a nós , vermelhos !</p>
<p> Tomado de verdadeira emoção , apontava   para a névoa colorida (  a pata sobressalente acompanhou esse gesto com liberdade).</p>
<p>Como o Chuveirão voltou a funcionar é uma história que merece ser contada:</p>
<p>Luizinho e seus três companheiros foram os que flagraram  os dois sabotadores, minutos após consumarem a depredação da roda d’água: quatro pás tinham sido arrebentadas  a porrete pelos  delinqüentes . Depois de os entregarem a um dos soldados, voltaram, sem qualquer demora ,  para tentar faze-la girar ; fizeram muita força, mas nada! </p>
<p>-         Vamos precisar de muitos colegas. E bem  fortes!– comentou Hulk &#8211; Quem sabe com mais cinco ou seis faremos este treco mexer-se!</p>
<p>-         O problema é que poucos têm força como nós! – lamentou Carlão</p>
<p>De repente, Luizinho   teve uma iluminação.</p>
<p>-         Pessoal ! Procurem não os mais fortes, mas aqueles com as maiores bocas.</p>
<p>-         Por quê?  – perguntaram ao mesmo tempo!</p>
<p>-         Vocês vão ver daqui a pouco.</p>
<p>-   Isso não vai ser difícil -  falou  Carlão .</p>
<p>Passados cinco minutos,  apareceram dez  bocudos convocados compulsoriamente</p>
<p>Dentre eles, foram escolhidos os quatro mais bem dotados (um deles, aliás, aquele  cantor de ópera que participava da , propaganda de comida light,  chamado Dom Saparotti).</p>
<p>Depois da breve preleção sobre a importância de fazer funcionar o maquinário  , a orientação dada  foi a seguinte:</p>
<p>- Cada um de vocês deve agarrar-se aos aros da roda nos pontos em que as pás foram quebradas e encher a boca com a maior quantidade de água possível. Mas atenção: isso só quando chegarem ao ponto mais alto; no ponto mais baixo, devem cuspi-la totalmente . Desse modo vocês ficam mais pesados quando  descem e mais leves ao subirem!</p>
<p>Ensaiaram, um pouco, o sincronismo e foram à luta.</p>
<p>      Sucesso: a roda andou , voltando a mover  os pistões da bomba de captação !</p>
<p>Lá no castelo, a conversa entre  o chefe dos azedos   e o Rei da Dissimulação  continuava:</p>
<p>-         General , antes de ser  devorado ,eu poderia dirigir  algumas palavras de despedida  ao meu povo  ? – pediu  saltando  , rapidamente, na busca do  microfone .</p>
<p>-         Bem&#8230; Majestade – balbuciou  o desconfiado (ele temia que Frog  gritasse por socorro e, assim, estragasse a emboscada); Chifrudão então ,  adiantou-se e, obstruindo-lhe o caminho  com seu corpanzil,   agarrou u o microfone em suas mãos:</p>
<p>-         Diga-me o que você quer comunicar  que eu ,mesmo, transmitirei – propôs com sua perene malícia  .</p>
<p>-         É uma mensagem curta: Viva o Rei Alfredo, o Rei Chica Bumba, Chica Bumba!</p>
<p>-         Só isso! Ah, que sublime! E, religando o som , repetiu a mensagem  com alegre ênfase e com um jeito quase infantil:</p>
<p>-         Viva o Rei Alfredo, o Rei Chica Bumba, Chica Bumba!  </p>
<p>Nesse momento, a névoa amarela  começou a cair , e o povo delirou de emoção.</p>
<p>-         Ah, amarelo! Que lindo! Primeiro vermelho, agora a cor de seu povo!  Quanto simbolismo! – bradou  deveras  impressionado (a mão esquerda também manifestou sua  admiração)</p>
<p>O Rei das Surpresas , ainda mais  um vez , confundiu o general- fã -clube:  lépido como nunca , começou  fechar as janelas e as portas do terraço, para que não fosse possível, sequer, desconfiar-se de que estava em curso  a  eliminação dos  bandidos .</p>
<p>-    Um ¨momentito mi Heneral¨, estou quase  pronto! – e, enquanto as fechava ,explicou  o porquê dessa  derradeira providência &#8211; Não quero que ninguém veja a cena do senhor devorando-me ! Sabe, poderia chocá-los!</p>
<p>O que se ouvia, então , de modo pouco distinto , lá de baixo ,eram os gritos da multidão (assustada com a dissolução dos invasores)  misturados à música da bandinha (  que tocava  a todo vapor) ; os nativos não  compreendiam  porque os soldados  estavam se derretendo ;  inicialmente ,  ficaram bastantes  perturbados, mas voltaram a alegrar-se  quando um daqueles ex-falsos pastores levantou-se , do meio da multidão, e profetizou:</p>
<p>-         Estes sapos são anjos enviados do céu! Agora que  cumpriram a missão de melhorar  nossas vidas , estão nos deixando!</p>
<p>O povo, de um modo geral, aceitou essa estranha interpretação. No entanto, Madalena , uma  velha e enrugada sapa, muito  conhecida por seu ceticismo,   puxou pela camisa o ex milagreiro , com sua bengala , e   perguntou-lhe desconfiada :</p>
<p>-    Como podem ser anjos, tendo chifres e sendo vermelhos?  É claro  que o profeta desconversou.</p>
<p>Mas voltemos ao palácio.</p>
<p>-     Feito!  Agora, o senhor poderia abrir a boca para eu poder entrar?</p>
<p>Na verdade, Chifrudão já mostrava a boca entre – aberta  , mas era de espanto pela coragem de seu  ícone  real; por alguns segundos , permaneceu imóvel, pensando que estava diante não apenas de um sábio , mas de um verdadeiro semi-deus .</p>
<p>Então  , inesperadamente, bateram à porta.</p>
<p>-      Entre – falou, com mansidão, o embasbacado General, sem pensar muito no que  acabara de  dizer .</p>
<p>Foi a vez do Rei  levar um grande susto: eram o ex Primeiro Ministro  e a Rainha Batráquia com  a filha .</p>
<p>-         Ah, entrem meus amigos!–  falou  o carnívoro vermelho,  animado e cínico , como que acordando de um transe.</p>
<p>-         Amigos?! &#8211; reclamou o super-anfíbio.</p>
<p>-         Olhe , Alfredo, acho que , antes de eu incorporar a sabedoria  de Vossa Sapiência , você deveria  conhecer o acordo que  fechamos &#8211;  eu e seus amigos.</p>
<p>-         Eles não são meus amigos-  respondeu com rispidez nunca  antes demonstrada .</p>
<p>-         Vejam só a insolência desse ¨ farmaceuticozinho¨ de meia tigela! –provocou  a Princesa,depois de muito tempo sem poder falar ( cuja voz em falsete, por sinal,  era muito  desagradável) .</p>
<p>-         Ah, sim! Ontem eles contaram-me tudo sobre você   – revelou-lhe  o líder dos alienígenas  .</p>
<p>-         Ele nos enganou muito bem, General! Mas lá na prisão&#8230; quero dizer&#8230; lá ,em  nosso retiro, chegamos à conclusão de que esse personagem só poderia ser o mesmo charlatão , que algum tempo atrás  arruinou-se  com dezenas de ações judiciais – disse, <em>maliciosamente ,  o mais malévolo e malquisto magricela  maquiavélico. </em></p>
<p>O soberano ouvia tudo, mas não movia um só músculo e não dava a  transparecer qualquer emoção, como se tivesse ¨botulinizado¨ não só o corpo , mas  a própria alma .</p>
<p>-         Você também me enganou, Majestade  – completou o General. Mas devo admitir que <em>sois </em> muito mais rei que aquele imbecil que eu  saponifiquei &#8230; Ah, ah, ah!! – gargalhou sob os olhares de reprovação da viúva,  e  espirrando  saliva  por  todos  os lados (aliás,  desde o início da festa, os  invasores  salivavam  como nunca  !) .  </p>
<p>-         Sabe, majestade, o fato é que eu e seus&#8230; inimigos concebemos  um novo  panorama político &#8230; digamos&#8230; uma Solução Final  . Minha idéia inicial era&#8230;, vamos dizer &#8230; incorporarmos as proteínas dos peixes voadores e dos cidadãos e cidadãs mais jovens, jogando todos os outros precipício abaixo. Mas Champignon fez-me uma oferta irrecusável e eu aceitei-a.  O novo esquema não tem a longanimidade  de um daqueles de Vossa Onisciência, mas&#8230; assim é a vida!  . Vamos, de fato, jogar – ou, se resistirem, dissolver &#8211; a maioria dos adultos e velhos. O primeiro Ministro, aqui, assumirá o trono e o regime deixará de ser uma monarquia parlamentar, para ser  uma monarquia pura e simples.</p>
<p>-          Você quer dizer uma tirania  – afirmou o exterminador de alienígenas .</p>
<p>-         Como queira. O regime de escravidão será  instituído e todas fêmeas jovens e alguns poucos machos reprodutores  serão&#8230;</p>
<p>-         Reprodutores! – pela primeira vez , Alfredo  levantou  a voz encolerizado.</p>
<p>-         Alguns jovens reprodutores  serão incumbidos  de manter nosso aporte alimentar durante todo o ano &#8211; continuou o  cururu nazista .- Os sapos bebês e girinos  serão paralisados com Botulina e jogados cachoeira abaixo , todos os dias à mesma hora :nós os  estaremos recepcionando ,  lá em baixo!  E , uma vez por ano, faremos uma visita a este belo Reino, para  recebermos  os voadores  de braços e&#8230; bocas abertos !</p>
<p>Voltando-se, então ,  para os seus três declarados desafetos ,  Churchill Frog  deu-lhes uma sova de língua :</p>
<p>-         Vocês tiveram a coragem de vender seu próprio povo?  E para esse canibal  desalmado! Vocês são muito piores que ele ! Vocês  são aberrações monstruosas! Vocês não passam de  assassinos  genocidas !   </p>
<p>-         Espera lá!  &#8211; interveio o Chefão &#8211; Isso não tem nada a ver com assassinato! É nada mais, nada menos que a Lei da Natureza: os mais fortes vencem os mais fracos!</p>
<p>-         Natureza? Natureza?! . Vocês – pimentões de chifres-  não têm nada a ver com a Natureza ! São mutantes, produtos da poluição ambiental! Vocês é que deveriam desaparecer !</p>
<p>-         OK , chega de papo furado &#8211; respondeu o devorador  ofendido &#8211; Você vai entrar em  minha boca ou eu vou ter que atacá-lo?</p>
<p>O Rei do Fingimento  representou um ar de resignação.</p>
<p>-    Está bem: deixe-me tirar a peruca , minhas roupas e a prótese . Os senhores  poderiam , ao menos , virarem-se de costas, por um momento? – pediu aos seus inimigos .</p>
<p>Chifrudão, com  olhar feroz , obrigou-os a acatarem – a contra gosto &#8211; o último pedido de sua nobilíssima iguaria .</p>
<p>- Obrigado , General .V.Excelência  pode abrir-la, que  dispo-me em um segundo. Entrarei  correndo  para que, com o impulso, o senhor me  engula com rápidez e eu possa sentir menos dor .</p>
<p>Chifrudão aquiesceu, nas mesma hora,  nitidamente comovido .</p>
<p>Quando escancarou a bocarra assustadora, ao mesmo tempo fechando os olhos, o condenado estava apenas descoroado. Foi  nesse exato momento que  Alfredo  levantou  seu roupão,  pondo a descoberto a prótese de molas : ela  fora, inteligentemente,  transformada  em um arpão  com muitos saquinhos de bicarbonato amarrados à flecha  ( Oto Engenharia &#8211; Sociedade Civil Limitada ).</p>
<p>- Lá vou eeeu !</p>
<p>Então , apertou o gatilho, acertando em cheio a grande<em> campainha</em> da gargantona  respingadora  de  uma saliva viscosa  e azulada   .   </p>
<p>O iludido  militar  assustou-se com o impacto , mas não pode  impedir o reflexo da deglutição ;  só percebeu que fora enganado quando, ao fechar o boqueirão e abrindo os olhos, viu Alfredo sorrindo à sua frente.</p>
<p>-         Quando o bicarbonato começar a entrar em sua circulação , daqui a alguns segundos, Mein  Fürer ,você deixara de ser o resultado de uma anomalia cromossômica !</p>
<p>Chifrudão concluiu , então, que iria  dissolver-se ;  mesmo assim , quis fazer uma derradeira  maldade. Começando a sentir os efeitos da droga , o papo estufando exageradamente (  pois, o que recebera foi uma overdose de bicarbonato ), o bandido,  cambaleante, arrombou a porta  do aposento real  e dirigiu-se ao para-peito do terraço para gritar aos seus comandados :</p>
<p>-         Destruam todos! Comam todas as crianças ! Dissolvam todos os adultos! Joguem-nos no precipício!  </p>
<p>Mas, pouco antes de começar a se auto-digerir,  pôde constatar, desolado, que toda a sua gangue já não mais  existia. E , segundos mais tarde , o  que dele restou foi apenas  um montão de gelatina ,  arroxeada e borbulhante ! ( na verdade , mais tarde ,  sapos legistas identificaram uma grande quantidade de  resina  ¨sapotínica¨  na posição  correspondente aos seus musculosos bíceps – os três!  ).</p>
<p>Mas voltemos à dramaticidade das  cenas finais :</p>
<p>Quando  a multidão ouviu  aquela ordem absurda , emudeceu , de imediato ,  e a bandinha silenciou , repentinamente; e a partir desse momento  ninguém mais  tirava os olhos de tudo o que acontecia no palácio .</p>
<p>O falso  religioso  recebeu uma potente  bengalada de Madalena  e desmaiou</p>
<p>-    Anjos, heim! Seu imbecil!  &#8211; protestou  indignada</p>
<p>Lá em cima, o trio maligno, tomado de surpresa, permanecia estático.  Vendo que seu terrível acordo fora por água  abaixo, tiveram, como primeira reação procurar  agredir o <em>sobra</em> ; e ele,  adivinhando-lhes a intenção, rastejou  para o terraço , veloz como cobra em  areia quente . A Rainha saiu na frente do ataque  : alcançando-o,  saltou para  cima de suas costas  e  quis enforca-lo .Só não conseguiu  faze-lo por causa da  limitação dos  próprios braços : tentando agarrar o pescoço real , a pele daqui &#8211; puxando a pele de lá-   forçava-a a fazer um ridículo biquinho  , como se fosse assobiar ; mas nada de os membros esticarem-se  o suficiente  !   Desistindo do estrangulamento , passou ,então,  a pular  repetidas vezes sobre  o dorso do frágil  perneta . O quase- bife – de –sapo ,  no entanto , conseguiu tirar a seringa de Botulina que escondia sob a peruca e , com toda a  força , injetou-a  na  gorda  coxa  real ; em segundos, conseguiu   paralisar  a “ pesadona “  , completamente .</p>
<p>Papudinha veio socorrer a mãezona ,estatelada em cima de abatido soberano .</p>
<p>-    Mama, reaja Mama! – gritava ela, dando-lhe tapinhas no rosto.</p>
<p>Nesse momento,  o  Primeiro Ministro do Mal , aproveitando-se da imobilização do Rei , desferiu-lhe um violento ponta pé na cabeça , o que o fez perder os sentidos . Na seqüência, e com muito esforço, retirou &#8211; o de sob a avantajada nádega real : levantou  o  sapo peso –pena  pelo colarinho e  foi até o para-peito ,  na tentativa de pregar mais uma mentira  aos que tudo assistiam boquiabertos ( e que, por isso , se apertavam ainda mais !)   </p>
<p>-    Meu povo: este falso rei foi o responsável pela vinda desses  invasores ; planejava  eliminar as nossas principais   lideranças, a começar pelo saudoso Rei Batráquio – o     que acabou conseguindo  com a ajuda  dos vermelhos . Sua intenção  malévola era      conseguir  o apoio de todos vocês, para depois  entregar  seus filhos e filhas a estes    sapos canibais!  </p>
<p>      Mas eu descobri suas reais  intenções e tratei de eliminar todos esses bandoleiros  !</p>
<p>      Agora, eu, o seu Primeiro Ministro ,  vou&#8230;</p>
<p>Champignon , neste momento , foi  interrompido por alguém que falava ao microfone, de dentro do salão,  bem em frente ao  janelão aberto.</p>
<p>-         Isso não é verdade! – revelou  uma linda sapinha. -Alfredo é o melhor governante que vocês já tiveram e foi ele quem planejou tudo para  nos livrarmos  desses violentos !</p>
<p>Ao ouvir  esta revelação, o  povão soltou  um uníssono Oh! </p>
<p>Quando o Barão voltou-se para a janela e   reconheceu que quem falava era sua própria filha, Isabela ( aquela mesma por quem Dr. Frog se apaixonara e que o ajudou a arruína-lo )  gritou irritado:</p>
<p>-    Minha filha, saia já daí  !</p>
<p>A espontânea  e impensada inconfidência  sobre quem  estava defendendo o monarca de modo  tão cabal  provocou  um segundo Oh!  entre a multidão . .</p>
<p>-     Papai, já fizemos muito mal ao povo e&#8230; ao Rei Alfredo!  (lamentou, em tom de arrependimento)- Nunca nos perdoarão pelo que praticamos! Temos que recomeçar em outro lugar. Vamos embora agora, antes que seja tarde!</p>
<p>Muitos  deputados  e  ricaços – temendo uma  CPI – logo perceberam  a confusão  em que estavam metidos  e,assim ,  decidiram saltar  cachoeira abaixo.</p>
<p>A Princesa também entendeu o recado: com visível  dificuldade , fez a volumosa genitora cair na água e, subindo em cima de sua  pança , foi remando em direção à cachoeira de deságüe .</p>
<p>Então, o  pai da arrependida , pela posição em que se encontrava , pôde  ver que um bandoleiro  acabara de entrar no salão . Era aquele que levara os dois prisioneiros para a cadeia e que não se expusera à névoa destruidora. Sorrateiro, ia ao encontro de Isabela, insalivando muito, o que indicava a sua gastronômica  intenção: iria devora-la ali mesmo. O Sorvete de Pimenta  largou  Alfredo – que despertou &#8211;  e saiu pulando, celeremente, na tentativa de impedir  a previsível ¨ batraquiofagia¨ . Quando o soldado saltou em direção  à filha para a certeira mordida, o zeloso pai empurrou-a, tomando seu   lugar.Nos últimos instantes de sua vida  mostrava,afinal, que , junto com a pimenta coexistia um pouco de doçura paternal . Depois de sentir um gosto muito ruim  e fazer uma carantonha  de nojo ,  o bandoleiro  abriu os olhos e percebeu que tinha, na verdade , engolido um sujeito muito amargo . Isabela, descontrolada, atacou-o com um comprido abajur de vaga-lumes (que voaram assustados).</p>
<p>-         Isabela, não faça isso! – gritou  o antigo apaixonado  </p>
<p>Mas o  canibal de chifres  contra-atacou com seu veneno poderoso e, em poucos segundos, a liquefez  inteiramente .</p>
<p>Logo em seguida, os  co-heróis, Hulk, Carlão, Mustafá   e Luizinho entraram vestidos com aquelas roupas negras da Swat, empunhando os<em> borrifadores</em>  e com escudos para ricochetear os jatos de enzima . Em poucos segundos deram cabo do último invasor , que se dissolveu por inteiro.</p>
<p>Margarida chegou correndo e  abraçou  Alfredo, caído no terraço e cheio de hematomas. Ajudando-o a levantar-se, deu-lhe um beijo na boca &#8211; do jeito que só os sapos sabem fazer.</p>
<p>O povão ensaiou um  coro emocionado de Ãhs&#8230; !   </p>
<p>Nesse instante ,  seus amigos entregaram-lhe o microfone e ele fez um breve e solene discurso:</p>
<p>-         Meus irmãos: quis o destino que, em pouco tempo, passássemos por situações que ninguém poderia te-las imaginado.Muito das coisas ruins que nos aconteceram foi resultado do mau uso da nossa água – preciosidade da qual nós – anfíbios &#8211; dependemos de modo tão  essencial ! E tal descaso gerou terríveis  conseqüências  –sendo  uma das piores, o aparecimento desses degenerados mutantes.</p>
<p>-         A poluição que nos atingiu dependeu , em muito, do desregramento  dos que  governavam esse reino e  que degradaram  o meio ambiente  pelo abuso irresponsável dos  nossos recursos naturais.No entanto,  também nós , ao invés de termos resistido e  reivindicado , com todas as nossas forças, o que era de direito , acabamos por imitar os  mesmos esquemas ¨vale- tudo¨ dos mafiosos no poder: de um modo geral , corrompemo- nos  e acabamos por contribuir para a  degradação ambiental  e social  a que  chegamos.</p>
<p>-         Agora chegou um novo tempo, um tempo para começarmos  tudo de novo !</p>
<p>-         Vida nova para o Reino dos Sapos Amarelos!</p>
<p>-         Águas limpas para todos!  </p>
<p>-         Todos pelas águas limpas!</p>
<p>A cena final é típica de Hollywood: o casal  abraçou –se  com ternura ,tendo por fundo a névoa multicolorida, varrida por feixes de luzes dos  vaga-lumes holofotes  e sob vivas de toda a saparia <em>coaxante</em>   !                                                                                   </p>
<p>                                                                FIM</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vivarelli.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vivarelli.wordpress.com/18/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=18&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/30/um-epico-infanto-juvenil/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="http://1.gravatar.com/avatar/b05c9f74c08fa1b5cd38c53992a5a576?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">vivarelli</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>A ONÇA E O GALO DE PANO</title>
		<link>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/a-onca-e-o-galo-de-pano/</link>
		<comments>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/a-onca-e-o-galo-de-pano/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 28 Nov 2009 20:21:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>vivarelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[conto infantil]]></category>
		<category><![CDATA[ilustrador de livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura infanto juvenil]]></category>
		<category><![CDATA[livros em parceria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://vivarelli.wordpress.com/?p=13</guid>
		<description><![CDATA[                        A ONÇA E O GALO  DE PANO I- SUÇU- A ONÇINHA PREGUIÇOSA Suçu era  uma onça  muito  preguiçosa . Ele resolveu que  não mais queria caçar porque  isso estava  dando   muito trabalho &#8211; assim reclamava  este jovem macho &#8211; de um marrom avermelhado , só um pouco mais claro  próximo das patas , do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=13&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>                        <strong>A ONÇA E O GALO  DE PANO</strong></p>
<p>I- SUÇU- A ONÇINHA PREGUIÇOSA</p>
<p>Suçu era  uma onça  muito  preguiçosa .</p>
<p>Ele resolveu que  não mais queria caçar porque  isso estava<em>  dando   muito trabalho</em> &#8211; assim reclamava  este jovem macho &#8211; de um marrom avermelhado , só um pouco mais claro  próximo das patas , do peito  e da  barriga   . Foi cismando em cima de um maçaranduba  que ele   chegou  a essa  decisão:</p>
<p>- Ah , eu não agüento mais ter que correr o tempo todo atrás do meu jantar! O  safado doDirceu  , aquele coelho    insolente ! Um dia eu pego esse orelhudo  &#8230;!  Quando  o persigo  , ele sempre encontra uma toca  prá se enfiar  e depois sai  lá longe , fazendo   gozação  com minha  cara !</p>
<p>(Dirceu  voltava  o bumbum para Suçu  e,  chacoalhando a cauda  curta e branquinha, cantarolava – Lá, lá , lá, lá , láááááá &#8230;. lá !) </p>
<p>- E o Ignácio  -  o  tatu canastra ? Parece que ele tem o prazer de me aguçar o apetite, mas  quando  chego perto  ele  se transforma  naquela bola  dura  e ossuda  que  é capaz de quebrar qualquer dentuça.</p>
<p>-  Já sei! Vou  deixar de correr neste cerrado feito louco . Eu  vou é atacar   a fazenda ! Lá só dá bicho bobinho ,  animais que  nunca caíram  na vida . Comem na hora certa , têm garçons   humanos  o tempo todo , nutricionistas,  comidinha  balanceada . Não fazem  a menor idéia do que é  ter que criar uma  estratégia nova   para  driblar a fome a cada  dia que chega – era este o seu raciocínio atrapalhado  .  </p>
<p>Resolveu, então, colocar  o   plano  em execução . Ao anoitecer ,  passou  pelos dois mata – burros que  haviam na entrada e  foi se enfiando  fazenda adentro .  O primeiro <em>self service</em> que encontrou  foi o  curral ;  logo cravou  os olhos certeiros   num bezerrinho novo  que estava ao lado de sua mamãe.</p>
<p>- Hummm&#8230;! Que delícia!!! Aquele amiguinho  vai matar a minha fome por uns  três dias ! Não , não ! Por uns quatro , se eu não desprezar os ossos  – que nessa idade  não são tão duros como nos adultos .</p>
<p>E saiu rastejando,  sorrateiro,   em direção  ao vitelinho , aproveitando-se da distração de Dona Iza  , a mãe.</p>
<p>- Mas que estranho !  &#8211; Suçu falou consigo mesmo , à medida que se aproximava da vítima – O  chão parece que está  vibrando ! Bah !&#8230;  Deve ser coisa de fazenda .</p>
<p>E não interrompeu  seu  lento e  cuidadoso deslocamento nem por um instante ,  pois  a idéia de  comer tanta carne fresquinha  &#8211; e até alguns ossinhos moles &#8211; era por demais irresistível   .</p>
<p>Mas a cada  passada ,  a vibração ficava mais  intensa .</p>
<p>- Isso não é  bom sinal ! &#8211;  o instinto felino  lhe cochichava  em um dos ouvidos , enquanto o  diabinho da gula  o tentava  no outro:</p>
<p> – Vai ! Vai! Não pára !</p>
<p>Então , voltando a cabeça para a direita  de  repente &#8211;  pois  com o canto direito dos olhos  percebera  uma  imagem  escura  pouco  nítida &#8211;  descobriu , já a poucos metros ,  um enorme touro  correndo  em sua direção a toda velocidade   e com os  longos  chifres   mirando em  seu  tórax  ;  num curtíssimo intervalo  -  o tempo  de  dizer-se   <em>mi</em> , sem completar com o <em>lharal</em>  &#8211;  Suçu  deu um fantástico pulo para o alto e para esquerda , conseguindo  livrar-se  de  uma mortal  perfuração .  Era  o vigilante pai  de Fernando  , o touro Jefferson – um  descendente de ingleses  da raça dos  Devon .</p>
<p>Miando  alto &#8211; por  medo , raiva  e  tentativa de intimidar o grandalhão  -  <em>deu nas patas</em>  e  , veloz como  nunca , fugiu  em direção  ao mato mais alto  que existia naquelas paragens.</p>
<p>- Ufa! Ufa! Resfolegava  , enquanto tentava se acalmar  ,  com  olhos  e ouvidos  muito atentos para ver se alguém o seguia.</p>
<p>- Mas que  coisa ! Quase que   aquele grandalhão  me pega !      </p>
<p>Refeito do susto , partiu para  novo ataque, porque , afinal, ele era ¨O¨  animal  experiente do cerrado  e, afinal de contas ,   o que tinha ocorrido<em> fora apenas uma ¨obra do azar ¨</em> &#8211; foi  assim que ele interpretou  tudo  .</p>
<p> Perambulando , chegou até o estábulo .</p>
<p>- Olha  ali ! – disse  a si mesmo,  animado – Aquele  potrinho  parece bem mais  suculento que o filho daquele chifrudo .</p>
<p>E foi se aproximando,  confiante , pois , por perto , só  havia  uma jumenta muito velha  -  o pelo de um bege desbotado  já com alguns fios brancos  aqui e acolá . Era Leda , a avó  do cavalinho,   que  comia  com a cabeça  enfiada no cocho , enquanto o netinho  brincava com a  cauda  da  vovó.</p>
<p>Suçu  preparou o bote ; saltou  buscando a  garganta  de sua pequena vítima  para  asfixiá-la com rapidez , mas  um potente coice de Leda  interrompeu a  trajetória retilínea  do ataque ,  como uma bola de gude  ao ricochetear em  outra .Vovó  estava  velha , mas certamente não  caduca  e , muito menos , picega .   </p>
<p>Suçu  bateu  o  corpo musculoso   num  barril de água , que se espatifou por inteiro  . Tonto, todo molhado , mas  sentindo a necessidade de dar  o fora dali o mais rapidamente possível , disparou  cambaleando  em direção ao  canavial que havia por perto .</p>
<p>-  Mas que azarado !  &#8211; raciocinou ele  quando  viu-se  a salvo  . E reclamou  do destino :</p>
<p>- Primeiro aquele cornudo , agora esta velhota de  patas  fortes  !  Me pegou bem  na  coxa ( que  latejava  dolorida )</p>
<p>Mas o estômago  de Suçu  também  doía &#8211;   era de fome &#8211;  e , mais ainda, os brios   deste <em>rei do cerrado</em> –  como ele  chamava a si mesmo, aquele pretensioso !  </p>
<p>A noite já se fazia  bem escura  quando  decidiu  reiniciar a procura  da sua refeição.  </p>
<p>- Olha ali  aquela porca  enorme com &#8230; um, dois,três, quatro , hummm.., humm &#8230;  doze  filhotinhos ! Ai que delícia ! Ai , o meu colesterol !  Ai os meus parentes &#8211; os <em>tigres sérios</em>  ! &#8230;</p>
<p>Mas desta vez ,  não chegou a trinta  metros  do objetivo . O latido agudo  de um  vira-latinha  feio  e bernento ,  o Aparecido  do Nada ( este era seu nome ! ) ,  assustou e  enfureceu Suçu ,  que estava disposto a silenciá-lo ali mesmo,com uma violenta  patada . Mas , o que os tais  latidozinhos  mixurucas fizeram foi  desencadear uma  seqüência  crescente de  chamados de alarme, ora aqui, ora ali.</p>
<p>-  Puxa ! Isto aqui não é uma fazenda. É o  canil municipal  de cidade grande !    </p>
<p>De fato:   mais de quinze  cães  adultos moravam  nesta  fazenda . Quando percebeu que  uma perseguição  estava em curso  , arrancou  como poucas vezes  fizera antes  em sua vida  de caçador  &#8211; pois, até então,  nunca se vira como caça . A salvação  foi  encontrar uma lagoa : foi nadando que conseguiu  despistar o cheiro  forte de seu suor  . </p>
<p>Deprimido , bravo e respirando com dificuldade  , resolveu voltar  de onde veio resmungando  da má sorte , lamentando  ser um  animal carnívoro e não  um herbívoro qualquer e , ainda , rogando pragas contra  os  ¨bobinhos da fazenda .¨</p>
<p>O sol já estava sendo parido quando Suçu cruzou  com  o galinheiro .</p>
<p>- O galinheiro ! O galinheiro! – dizia excitado , como se tivesse encontrado  a resposta para  um grande problema .</p>
<p>E, sorrateiro , foi se aproximando de  Ilma ( também conhecida por Ilustríssima ) , uma velha penosa que , sozinha,  tricotava  na cadeira de balanço da  varanda .</p>
<p>Um bote preciso  e a última  e abafada frase da costureira foi  essa:  </p>
<p>- Quem  apagou as luzes? &#8211;  Ilma  já se encontrava  dentro do estomago de Suçu !</p>
<p>O marronzinho , de barriga cheia, deu-se por satisfeito  e imediatamente  correu em direção ao cerrado , pois  sabia que  seu  inimigo diário  estava  prestes a  se manifestar com toda a sua força : a claridade da manhã  .</p>
<p>II -  DIGERINDO O DESASTRE</p>
<p>No dia seguinte , o maior cocoricó , todos   assustados ,  conversas  prá lá e prá cá  – as galinhas conversando   entre si e os galos reunidos  em separado, muito nervosos  e cacarejantes .</p>
<p> Já se sabia-  pelas marcas das patas- que uma onça macho   teria sido  o responsável pelo desaparecimento da mais antiga habitante  daquela comunidade  . A agulha de tricô despedaçada , a cadeira de balanço  lascada por um dente afiadíssimo ,   o novelo de linha  e algumas penas caídas no chão  davam , perfeitamente, a idéia do que  teria acontecido . Além disso , o cheiro  forte  do suor de Suçu  permanecia no ambiente .</p>
<p>Foi preparada uma audiência pública  por Helena , a esposa do líder do galinheiro , o galo Genoíno  .</p>
<p>- Minhas amigas e meu companheiros : estamos aqui  para prestar nossa homenagem a nossa muito querida   Ilma  , que deixou-nos  ontem a noite,  tragicamente,  enquanto  costurava  em  nossa varanda . Tudo leva a crer que um terrível felino resolveu atacar-nos  covardemente , sem que ninguém  nos avisasse  da sua presença   .</p>
<p>Ilustríssima    ficará sempre  em nosso coração  e será eternamente  lembrada pela  bondade e sabedoria  .</p>
<p>- Estamos aqui  , ainda, para ouvirmos o pronunciamento oficial  dos nossos  maridos  &#8211; o  que , certamente,  irá nos tranqüilizar  . O representante dos senhores galos  irá, agora,  explicar as estratégias que  serão  colocadas em prática . Com vocês ,  o meu marido ,   Genoíno  </p>
<p>(  aplausos entusiásticos  de toda a galera  )</p>
<p>-Genô, Genô  , onde está você ?  &#8211; gritava Helena   dirigindo-se ao  grupo dos machos .</p>
<p>Empurrado  por alguns , eis que  ele , afinal ,  voou para o  poleiro principal, ao lado da esposa.  </p>
<p> -Muito obrigado , muito obrigado – falou  encabulado ; e pigarreando  um pouco , começou a apresentação    :</p>
<p>- Bem &#8230; minhas amigas  &#8230; Como todos vocês sabem , nós ,  galos , temos afiadas esporas e somos muito ágeis e precisos em perfurações &#8230; ; no entanto, comparadas às unhas  afiadíssimas desta onça ,  elas  são  como espinhos de roseiras !</p>
<p>Também   a mãe natureza deu-nos bicos muito duros e pontudos ; mas comparados aos dentes deste monstro,  eles são  claramente inúteis .</p>
<p>Por outro lado , para nós,  fazer barulho  é  muito fácil , e acordar  toda a fazenda com nosso cacarejar é &#8230;.podemos dizer&#8230; pinto . Mas , certamente,   os  colegas  que tentassem   isso   seriam os primeiros a ser destruídos.</p>
<p>E , então , encerrou  a questão :</p>
<p>- Diante desta visão&#8230; realista &#8230; dos fatos , nós , membros do GRUDE</p>
<p>( Grupo de Defesa)  concluímos&#8230; por unanimidade &#8230; ( e aí, acelerou  o discurso )  que não  deveremos tentar enfrentar  tamanho perigo sozinhos , devendo  aguardar  que  nossos tratadores humanos façam isso  por nós.  Tenho dito  !</p>
<p>Silêncio total . Por  alguns segundos , ninguém abriu o bico tal a surpresa causada pelo discurso  derrotista de Genô . Helena  olhava para ele  decepcionada  .</p>
<p>Mas de repente, lá do meio da multidão , ouviu-se de uma jovem uma sentença tão curta quanto explosiva :</p>
<p>- Vocês são uns covardes!    </p>
<p>Foi o que bastou .</p>
<p>- Galos incompetentes!</p>
<p>- Biltres !</p>
<p>- Inúteis !</p>
<p>- Monte de penas que não servem nem para espanador de pó !</p>
<p>E daí prá baixo . Um fuzuê  danado!  </p>
<p>Foi quando Helena fez um pronunciamento inesquecível , dirigindo-se diretamente ao seu  esposo  e a todos os  machos :</p>
<p>- Vocês, que sempre se  colocaram como os protetores do  nosso galinheiro!</p>
<p>-Vocês , que sempre cantaram  de galo  !</p>
<p>- Vocês que sempre  exigiram ser tratados  com todo respeito  !</p>
<p>- Agora , simplesmente ,  <em>lavam as asas</em>  e mandam que nós fiquemos aqui, esperando para sermos  atacadas  por  aquele   carnívoro cruel  ?  Vocês são uma vergonha para  a nossa comunidade !</p>
<p>- Helena ! Falando assim você   nos ofende! – reclamou Genoíno , acompanhado pelos apupos dos  companheiros .</p>
<p>- Ofendo ? Seus metidos inúteis ! –e, agora dirigindo-se à platéia feminina , conclamou a todas :</p>
<p>- Minhas amigas : proponho que  expulsemos  nossos maridos de nosso meio imediatamente ! Que  eles só voltem  aqui com um plano de defesa muito  bem  definido !</p>
<p>Foi uma grande ovação , com muitos gritos de  A<em>poiada! Apoiada !</em>   </p>
<p>As mulheres começaram,então, a empurrar os maridos , que ,  entre  desajeitados e  envergonhados  , foram  se agrupando  fora do galinheiro.</p>
<p>- Muito bem ! &#8211;  gritou o chefe  ,  silenciando a galinhada; e iniciou o contra &#8211; discurso  :</p>
<p> – Companheiros : vamos  para nosso  clube  ; quero ver  a valentia  destas senhoras  quando  o <em>papa-frangas</em>  voltar (  um Oh! de  indignação foi  geral , pois  <em>franga</em> , entre eles , tinha um sentido ofensivo )</p>
<p>E estufando o peito  , todos  se enfileiraram em direção ao seu clube sob  as vaias barulhentas da <em>mulherada</em>.</p>
<p>Com muita pressa  -  menos de uma hora depois -   Helena criava e assumia a coordenação  uma  Sessão  para a Salvação do Galinheiro  </p>
<p>- Silêncio por favor ! Um pouco de silêncio ! A sessão  está aberta para   opiniões de qualquer uma de vocês. Mas tudo com muita ordem – eu insisto  . Levante a asa direita e aguarde sua vez  para falar  .</p>
<p>- Ali:   Marina  ( uma galinha magrinha e  assustada ) &#8211;  Diga , meu bem  !</p>
<p>- Helena :  como  é que nós vamos enfrentar  aquela fera  sem nossos homens?   Eu estou com muito medo ! Estamos divididos e isto nos torna  muito frágeis  ! </p>
<p>- Marininha  – respondeu a líder do grupo   – Eu também tenho medo  e  só  uma louca diria  que  não está  nem um pouco assustada . Mas é no medo   que  muitos   animais encontram forças capazes de  derrotar qualquer  inimigo por  mais forte e ameaçador  que seja . A nossa força está em nossa união e na união das nossas idéias  : o que  cada uma de nós  apresentar nessa assembléia será aperfeiçoado pelo grupo   e certamente chegaremos a uma  estratégia  que vai  funcionar  . E, aí ,  nós vamos expulsar esse gatão covarde daqui !   ( muitos aplausos   )</p>
<p>- Eu acho que nós deveríamos  dar uma lição de moral  a essa onça  malvada –  falou  Jandira .      </p>
<p>- Você tem razão  &#8211; completou Marta &#8211; Não se trata de só  de  fazer esse espertalhão  correr daqui com alguma dor – que, logicamente ,  teremos  que  provocar-lhe,   mas humilhá-lo  para que ele nunca mais volte  .</p>
<p>- Eu acho que  deveríamos  passar pimenta na boca  desse comilão   -  sugeriu  Ângela  – uma gorda e alegre  galinhona</p>
<p>- E pimenta  forte é o que nós temos aqui  :   pimenta de bode, cumari , pimenta de macaco &#8230;. ( informou  a estudiosa  Rute  )  </p>
<p>- Mas  quem chegaria perto daquela bocarra  sem ser despedaçada  ?  - complicou Marina</p>
<p>- Bem &#8230; ( Helena  pensou  por alguns segundos ) E se  nós o enganássemos. Quero dizer  , se fizéssemos uma isca  para ele morder  e  ela estivesse cheia de pimenta ?   </p>
<p>- Que tal  montarmos um boneco – um grande galo de pano  cheio de pimenta- sugeriu  Zélia  &#8211; uma especialista em armadilhas  -  Ele tem que ser bem grande e  parecer  bem forte – do tamanho de um cachorrão , por exemplo . Assim ele  escolherá atacar  esse  super – galo <em> </em> e não uma de nós. Na falta de machos , só nos resta  fazer de conta  que temos um  &#8211; não é mesmo ?          </p>
<p>- Boa , boa! – cumprimentou Helena  -  acompanhada da excitação da assembléia barulhenta .</p>
<p>- Bem -  completou  Marina  ( aquela , a mais amendrontada ) – Eu sou uma  boa costureira e  acho que seria capaz  de  montar qualquer   boneco  com bastante  perfeição – afinal , aprendi  os primeiros pontos  com a Ilma  E não faz mal que não temos nossos companheiros por perto : mesmo se estivessem aqui , eles , certamente,  não serviriam de  modelo nem de músculos , nem  de coragem  .                </p>
<p>- Muito bem ! Muito bem , Marininha ! todas  gritaram .</p>
<p>- Mas  onças enxergam muito bem  ! – exclamou  Helena  -  Tem de  ser um  trabalho perfeito ! Este galo de pano ter que estar recoberto de penas novas  , pois qualquer sinal  de que  ele foi feito com  penas  velhas ou amassadas  levantará suspeitas .  </p>
<p>- Eu  faço a doação de dez  da minha cauda – gritou Ângela , pulando de alegria ( ela adorava dançar ! )  - A dor  do arrancamento vale  esta  causa!</p>
<p>-  Nada disso !-  interrompeu  Helena – Precisaremos de penas  masculinas e nossos maridos   é que vão fornece-las !</p>
<p>- Mas como? – toda a assembléia perguntou ao mesmo tempo</p>
<p>- Vamos  todas ao  Clube dos Covardes  fazendo de conta  que estamos indo lá para  pedir desculpas . Quando cada um de nós encontrar  seu par , eu darei um  sinal  ;  aí  arranquem  daqueles incompetentes a maior quantidade de que forem capazes   .</p>
<p>E assim fizeram . Em uma longa fila , foram cantando uma canção  bem ritmada  ,  balançando as  avantajadas   nádegas para um lado e para o outro segundo  a cadência  da música . Ela  foi composta na mesma  hora por Helena ,  que  , de todas , era a que melhor sabia como levantar a moral  do grupo :</p>
<p>Vamos minha gente</p>
<p>Vamos lá prá frente</p>
<p>Ter pena  do marido</p>
<p>Pra nós é coisa urgente</p>
<p>III-  O GALO  PICANTE</p>
<p>Os machões estavam muito à vontade em seu  reduto , fumando  cigarro de palha , tomando <em>cocktails</em> , jogando  e  fazendo ginástica( eles  eram muito esportistas ! ) </p>
<p>O galo   Henrique Garnizé  - o vigia-  logo que viu  a longa fila  de galinhas,  gritou  lá de cima :</p>
<p> -  Genoíno  ! São nossas mulheres ! Vem vindo em nossa direção !  </p>
<p>Genô  conferiu a cena  lá do  telhado. </p>
<p>- Ah , ah ! – comemorou  o chefe dos  machistas – Eu não disse , pessoal ? Elas  se arrependeram e  vêm pedir desculpas!( cacarejar geral e triunfante ) &#8211; Mas atenção :  todo mundo de  cara fechada ! Nada de recebê- las de asas abertas !  Temos  que mostrar-lhes  quem é que  manda <em>no pedaço</em> !<em></em></p>
<p>Quando  a última  ,  com ares de humildade  , colocou-se  ao lado do respectivo  carrancudo , Helena  –  ajoelhada  aos pés de Genoíno  –  deu o sinal para o  fim de toda aquela encenação :</p>
<p>-  Queridos maridos:  viemos aqui  para poupá-los de quaisquer coisas  que pudessem colocar em perigo a vida de vocês . Estamos aqui por  pena !</p>
<p>( Todos os  se entreolharam  , estranhando  a explicação :  &#8211; <em>Pena de quem</em>? –  eles se interrogavam)</p>
<p>- Meninas : podem começar a  ter pena  de seus  homens  !!! – gritou ela.</p>
<p>Foi uma confusão  geral e uma sinfonia de <em>Ui !Aí !  O  que que é isso, minha gente </em>!</p>
<p>Estava feito ! Correndo  ,  deixaram  os galos com  muitas  clareiras na   penugem bem cuidada .</p>
<p>O trabalho seguia  acelerado  .</p>
<p>Marina , com rapidez,  cobria com pano de saco o cacho de pimentas</p>
<p>variadas  que   Rute  e Ângela  iam prendendo  numa grande  armação  de  feno.  Helena  e Marta , por sua vez, nele  amarravam   pena por pena  com  fios delicados de algodão  . E Zélia , acompanhada  por muitas outras,  montavam  o cenário   que  Suçu deveria  encontrar em seu ataque :  o  bonecão  imponente , logo na entrada  no galinheiro , teria que parecer estar  <em>brigando  com o sono</em>  – como  uma guarda  valentão  sendo   vencido pelo cansaço  .  Uma corda bem oculta ,  sustentaria e balançaria ligeiramente a sua cabeça , a qual ora  levantaria , ora sofreria  pequenas  e repentinas quedas   para  frente  e de modo   repetido  ; uma velha  banheira musguenta , ao   lado , encimada por uma falsa  torneira ,  fora preenchida por cachaça do alambique , que teve o  forte odor disfarçado  dissolvendo-se nela  um tanto da ração estocada no silo (  feita  à base de  cana e milho  fermentados)  ;  próximo, espalhados no chão  , incontáveis  pedaços da casca de macauveira - repletos de espinhos-  e também muito óleo  de trator ;  no beiral do  telhado, logo acima   do  <em>galo apimentado</em> , várias latas de melaço de cana   e , logo em frente ao ventilador de teto, um estoque de penas  (  que sobraram da operação de <em>depenação</em>   dos machos !)  e um barril com  painas .</p>
<p>O resultado  do trabalho foi surpreendente!  ;  a honra do toque  final coube a  Marina    que  colocou sobre a cabeça do fantoche  uma penca  de pimenta- de – bode  : era  a sua  vistosa  crista   . </p>
<p>Tudo pronto  e só o  que restava a fazer era esperar  o certíssimo retorno do  faminto preguiçoso  .</p>
<p> Durante todo o trabalho , as meninas não puderam deixar de perceber  que estavam sendo espionadas por Henrique  , que do alto de um jequitibá imenso e com muito medo de cair , olhava-as  por uma luneta .</p>
<p>Genô , lá em chão  , recebia as informações   transmitidas  por colegas</p>
<p>colocados   em  galhos intermediários ,  um comunicando ao  outro  mais  abaixo o que Garnizé  observava  . Vendo   esta cena ridícula ,  elas riam muito  quando  ele , na tentativa   disfarçar ,  começava a  cantar  como se  estivesse apenas  exercitando seu  cacarejar estridente .</p>
<p>Mas vamos ao que interessa .       </p>
<p>De madrugada , Helena  foi a primeira a localizar Suçu e foi ela quem  sinalizou  com as asas,  para todas as outras,  que o plano já se encontrava em execução .</p>
<p>-Ora , ora, ora ! Aquelas  estúpidas acham que aquele galinhão  pode  me assustar .  Puxa,  ele é mesmo muito grande !  Olha:  se não tiver carne  muito dura  acho que vai   ser ele mesmo que eu levo lá prá  cima do maçaranduba :  é comida para três dias ! – pensava  deliciando-se   com a idéia  de comer  um bichão   daquele  tamanho  .</p>
<p>Dez metros de distância e Suçu  acelerou  . Mordeu  com violência o  pescoção   recheado   . O <em>gatão  do cerrado</em>  engoliu, instantaneamente ,   um bom naco da geléia vermelha em que se transformara  a mistura de  pimentas  , mas demorou  uns  três segundos para  perceber que  tinha acabado de   <em>iniciar-se um</em> <em>incêndio </em>  em sua garganta .</p>
<p>- Miauu ! Maldição !  Água !Água ! Cadê a água ?</p>
<p>Quando viu a banheira logo à frente,  correu para apagá-lo . Helena  ,   empoleirada   sobre a torneira – pois queria  de distrair-lhe a  atenção &#8211;  repreendeu-o  corajosamente :</p>
<p>- Não volte mais aqui , seu desavergonhado  ! Seu lugar é no cerrado e não  aqui  em nossa  fazenda !</p>
<p>Com raiva,  Suçu tentou um golpe  com suas garras agudíssimas ; ela   fugiu  com agilidade  e  ele  , muito mais preocupado em acabar com toda aquele mal estar   do que em atingir a galinha  corajosa  ,  mergulhou o focinho   na água &#8211; ardente.    </p>
<p>Sorveu   um grande gole da ¨<em>mardita pinga</em>  ¨  e foi , então , que   o<em> fogo  se alastrou</em>  para o peito e a barriga  .</p>
<p>Rugindo alto  , começou a pular feito <em>onça  desengonçada</em>  tal o  desconforto . E,  na rota de  fuga , acabou por encontrar  os espinhos e  o óleo escorregadio  .</p>
<p>- Ai ! Ui ! Ai</p>
<p> Lá de cima ,  então , as meninas derramaram as  várias latas de melaço sobre Suçu , enquanto  outras começaram a tempestade de penas  e painas,  levadas pelo vento forte do ventilador &#8211; que fora  ligado  no momento exato.   Foi  o  supremo vexame!</p>
<p>Suçu  se transformara  num bicho muito estranho , uma mistura de  onça,   galo e carneiro fofinho  ,  que tentava , a todo custo , fugir daquela armadilha  humilhante .</p>
<p>Uma última <em>surpresinha</em> de Zélia  divertiu a todas  ainda mais :  com vôos curtos , ela alcançava diferentes posições, e , em cada uma delas, descobria  placas com setas  indicativas   da direção  que  Suçu deveria seguir , obrigatoriamente,  para  ir embora  dali  . Quando , chacoalhando  todo ,  ele se desviava do caminho  ,  dezenas de ratoeiras  colocadas às margens  re- colocavam o marronzinho  no  trajeto   pré determinado ! </p>
<p>Por sua vez, as galinhas  , sentindo que haviam dominado a situação , saíram  dos esconderijos  e começaram a correr atrás da sua  vítima  cacarejando muito e atirando-lhe  mamomas  com estilingues .</p>
<p>Mas adivinhem onde Zélia  colocou a última seta ?</p>
<p>Resposta: bem em frente ao  Clube dos Covardes !</p>
<p>Henrique , ao  perceber  aquele <em>ser  assustador</em>  estava  vindo na direção deles , deu o alarme  e  todos os  galos  pularam prá cima do telhado, para conferir  aquilo que Garnizé  mal  conseguia  anunciar:</p>
<p>- Um mo..mo..mo.. monstrooo ! Vem vindo um monstro !   </p>
<p>Apavoradíssimos ,   amontoaram-se abraçados .  Suçu ,  desorientado  e sem querer, deu , então ,  uma forte cabeçada  na porta do  <em>galeiro</em> , o que provocou  um grande estrondo . Os machões  gritaram descontrolados  :</p>
<p>- Salva-nos, São Pedro!  ( este santo é o  padroeiro dos galos – pergunte aos seus pais! ) ,</p>
<p>O terror foi tanto  que eles acabaram, também,  por   perder  o controle  de  seus intestinos : aí , foi titica  prá todo o lado , um sujando  o outro  naquela  enorme bola  de penas  tremulantes  em que  se transformou  o grupo  .  Mas,  como a onça  só queria mesmo   ir embora  o mais  rapidamente possível ,  o marronzinho  continuou  veloz   em direção ao  seu  <em>querido cerrado</em> , sob  a gritaria  da  tropa feminina .   </p>
<p>Afinal , não se pode dizer que  Genoíno e sua turma  deixaram  de dar alguma contribuição  para a penosa aventura de Suçu  : ele saiu de lá levando  um enorme galo em sua cabeça !</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vivarelli.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vivarelli.wordpress.com/13/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=13&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/a-onca-e-o-galo-de-pano/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="http://1.gravatar.com/avatar/b05c9f74c08fa1b5cd38c53992a5a576?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">vivarelli</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>TRABALHO RECUSADO PELOS ARQUIVOS BRASILEIROS DE CARDIOLOGIA</title>
		<link>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/trabalho-recusado-pleos-arquivos-brasileiros-de-cardiologia/</link>
		<comments>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/trabalho-recusado-pleos-arquivos-brasileiros-de-cardiologia/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 28 Nov 2009 20:17:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>vivarelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquivos Brasileiros de Cardiologia]]></category>
		<category><![CDATA[fisiologia cardiaca]]></category>
		<category><![CDATA[ortotatismo e coração]]></category>
		<category><![CDATA[new physiologic concept of the heart systole]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://vivarelli.wordpress.com/?p=10</guid>
		<description><![CDATA[UMA NOVA CONCEPÇÃO SOBRE  A MECÂNICA  SISTÓLICA  DO  VENTRÍCULO ESQUERDO  HUMANO ( muito pouco ortodoxa  prá ser aceita!)       DESCRIÇÃO DE  PADRÕES  ¨ATÍPICOS ¨ DO FECHAMENTO  VALVA MITRAL  E  DA CONTRAÇÃO SISTÓLICA DO VENTRÍCULO ESQUERDO  EM  INDIVÍDUOS SAUDÁVEIS NA POSIÇÃO EM  PÉ Como é de conhecimento geral,  a ultrassonografia cardíaca descreveu  a dinâmica   do fechamento [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=10&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>UMA NOVA CONCEPÇÃO SOBRE  A MECÂNICA  </strong></p>
<p><strong>SISTÓLICA  DO  VENTRÍCULO ESQUERDO </strong></p>
<p><strong>HUMANO ( muito pouco ortodoxa  prá ser aceita!)</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>DESCRIÇÃO DE  PADRÕES  ¨ATÍPICOS ¨ DO FECHAMENTO  VALVA MITRAL  E  DA CONTRAÇÃO SISTÓLICA DO VENTRÍCULO ESQUERDO  EM  INDIVÍDUOS SAUDÁVEIS NA POSIÇÃO EM  PÉ </strong></p>
<p>Como é de conhecimento geral,  a ultrassonografia cardíaca descreveu  a dinâmica   do fechamento valvar mitral fisiológico  em indivíduos examinados  na posição deitada Nos últimos doze anos , logo após o exame convencional,  temos  freqüentemente realizado ecocardiografias de jovens masculinos  saudáveis ( menos comumente,  de  mulheres )  na posição ortostática,   na incidência  para esternal longitudinal esquerda . Estes jovens ,usualmente com menos de 20 anos de idade e  com baixas  massas corpóreas   ,   apresentam  <em>janelas ecográficas</em> mais amplas que os mais idosos e obesos.</p>
<p>A qualidade das imagens , de modo usual  , devido à interposição pulmonar , sofre nítida   piora em relação àquela  obtida na posição supina , mas é possível  notar que   em muitos  indivíduos , logo após  se levantarem ,  a valva mitral passa a  atuar praticamente como se fosse uma  valva unicúspide . Nos  casos mais acentuados ,   a cúspide posterior  permanece  aberta e praticamente imóvel  durante toda  a revolução cardíaca, como  que ¨aderida¨ à parede posterior  do VE :  somente a cúspide anterior participa  da oclusão do óstio de modo evidente .</p>
<p>Estes achados são facilmente reprodutíveis e talvez tenham  sido ignorados até agora  exatamente  por  não se considerar   confiável  a análise de  imagens  não muito nítidas .   Também é possível que a  não familiaridade com a dinâmica observada  tenha   levado a imaginá-la  como fruto de   artefato .</p>
<p>Esta dinâmica  mitral ¨ atípica ¨  pode , também, ter sido desprezada porque  ela se frequentemente  se manifesta associada a outra  aparente ¨ anomalia  dinâmica ¨  &#8211; o que é,  logicamente ,   inesperado em  indivíduos sem quaisquer indícios de patologia cardio vascular:  em muitos deles  , durante a sístole ,   a parede ventricular esquerda  basal</p>
<p>( observada na mesma incidência p.e.l.e)   passa  a exibir  um movimento paradoxalmente oposto  ao do septo interventricular , pois ,  na proto sístole  apresenta   um deslocamento  para traz  ou  centrífugo   . Na meso-tele sístole ,  este segmento da parede  reassume o  deslocamento  centrípeto esperado  , o que confere ao movimento total observado   um  caráter hiperdinâmico .</p>
<p>Ambos os fenômenos – o valvar e o  ventricular &#8211;   são  facilmente  eliminados ao  voltar o paciente  à posição deitada  e  quantitativamente apresentam-se dentro de um espectro  que , em nossa experiência , varia de  3 mm – nos casos mais comuns – a 11 mm nos mais  intensos .</p>
<p>Unindo  o que  as imagens permitem observar  com o que é sabido da  fisiologia cardíaca temos  interpretado estes dois  fenômenos  simultâneos  da seguinte maneira : com a diminuição do volume ventricular induzida pela redução do retorno venoso e pelo  aumento da freqüência cardíaca  ortostáticos ( parâmetros que , habitual  e fisiologicamente, têm magnitude variável  )  ,  o  espaço diastólico retro cuspídeo posterior  se reduz – tornando-se , em muitos casos,  praticamente  virtual ;   a superfície endocárdica da parede posterior , por sua vez,  diminuindo a  sua concavidade  natural   na diástole,   permite que a cúspide, nesta fase da revolução cardíaca ,  passe  a encostar,  ou, ao menos, ficar muito próxima do  endocárdio   . Desse  modo,  ela  não mais expõe   sua face ventricular aos turbilhões  sanguíneos diastólicos ,   perdendo   muito de  sua  mobilidade   e deixando de posicionar  adequadamente  para  a contensão do sangue sistólico ventricular .</p>
<p>De fato ,   a cúspide posterior   apresenta uma desvantagem funcional em relação a oposta:  os vetores de força que  atuam  em sua face ventricular  para ¨ elevá-la ¨ passivamente  à posição de fechamento  se dão  em um restrito espaço – aquele  entre ela mesma e a parede  posterior ; tal não acontece com a cúspide anterior , que  tem anteriormente  a via de saída do VE . Este folheto, então,  assume  o papel de ser  o  principal responsável pelo fechamento ostial , o que se dá de modo eficiente  e sem refluxos significativos,  pois o óstio  também tem sua área reduzida  com a diminuição volumétrica do ventrículo  . A zona aposicional da cúspide anterior, situada em sua borda,  passa  a não mais  justapor-se à correspondente   do folheto   posterior ,  como acontece na posição deitada ,  mas , sim ,  a tocá-la  em uma região variável   da sua  superfície  atrial  que está ( a cúspide posterior )   como que paralela à parede posterior do ventrículo esquerdo .  </p>
<p>Aliás ,  aspecto semelhante  já foi por nós observado  em estudo experimental  com cães  hipovolêmicos :  o folheto  posterior  mostra-se  pouco móvel e somente o anterior  participa preponderantemente da coaptação ostial mitral (1)</p>
<p>É amplamente reconhecido que ambas as cúspides mitrais   humanas, a  anterior e a posterior-   apresentam  uma nítida separação entre  a zona  aposicional &#8211; situada nas suas  bordas –   e a região remanescente  – chamada de zona livre  . A anatomia, portanto,   também fornece  elementos  muito claros para  indicar  como  a valva mitral  normal  se coapta .  </p>
<p>No entanto  esta informação anatômica não  coloca em xeque os achados aqui apresentados:  o  que reportamos  refere-se ao breve  momento em que o indivíduo   permanece estático  logo após    ao assumir  a posição  ortostática . Na verdade , nossos dados , por uma questão de método (exames realizados em  grande número de pacientes  em  ambulatório SUS  )  quase sempre  foram  colhidos em não mais do que  5 minutos  de observação  logo após o ecocardiograma  convencional na posição convencional . Permanecer  nesta posição marcial,    enquanto realizávamos   a análise das imagens   não deixa de ser uma situação  artificial  ou , mesmo ,  pouco espontânea    Em pé , mas movimentando-se – como se  está habituado a observar  em  ecocardiografias  realizadas  em esteiras ou bicicleta ergométricas –  não  se tem observado   o que relatamos aqui .   </p>
<p>Quanto à gênese do  movimento pseudo discinético da parede basal posterior  do VE, admitimos  a hipótese de que  ele possa  decorrer , exatamente ,  da coaptação peculiar  da valva mitral aqui  descrita.  ( fig 1)  </p>
<p>Como se sabe  a continuidade anel fibroso mitral /cúspides /cordas  / papilares   desempenha importante função na estabilização da geometria ventricular  sistólica.</p>
<p>Sabe-se , por outro lado , que a pressão diastólica final do VE  estira os  papilares colocando-os, no momento da pré sístole ,  num ¨ponto  ideal ¨ da curva tensão / força   , como que ¨preparando ¨  estes músculos  para   o encargo de suportarem as elevadas pressões  endo ventriculares que irão se desenvolver logo  em seguida .</p>
<p>Como   , em pé , a cúspide posterior  encontra-se  fixamente ¨ encostada¨ na parede posterior desde o final da diástole ,  neste instante da revolução cardíaca   suas   cordas  apresentam-se  sem  distensão e os respectivos músculos papilares  pouco   tensionados;    sendo assim  , as paredes basais  do VE   encontram-se , logo no início da sístole,   momentaneamente , ¨ mal ancoradas ¨ ,   abaulando    não só pela incompetência  mecânica de cordas frouxas, como  pela  diminuição da eficiência  tensional   dos papilares  que   iniciam sua contração  sistólica  em outro ponto  não ideal da curva  de Frank Starling .</p>
<p>Discinesias  segmentares  do VE  não  isquêmicas já foram identificadas  em  exame ecográfico transesofágico  em pacientes  em hipovolemia aguda (2)  : cremos  que  as explicações que  apresentamos acima    possam  guardar alguma relação  com algumas das anomalias contrateis que os autores   detectaram   em indivíduos  examinados no momento  da instituição  do bypass cardiocirculatório  em cirurgias  .</p>
<p>É natural  especular , a esta altura ,  uma possível relação  desta peculiar dinâmica  ventrículo-valvar  com  quadros de síncope/pré sincope . Afinal ,    os casos  de síncope ortostática  espontânea ou provocada  por meio do tilt test  parecem estar relacionados a uma hipercinesia parietal onde  receptores  intra murais são ativados – o chamado reflexo de Bezold Jarish .   Colocado  de outra maneira , poder-se-ia questionar se, dentro do espectro variável  de  graus de  abaulamento  paradoxal da parede basal do VE que nos acostumamos a encontrar desde que iniciamos  a ecocardiografia  ortostática , não  tenhamos considerado  normais  casos  não fisiológicos   – como  aqueles  em que o abaulamento sistólico alcançou , como relatamos  aqui ,   até  11 mm,    nos quais se percebe   notável  hipercinesia daquele segmento parietal.  </p>
<p>Não temos resposta para esta  pergunta , pois  nunca  nos  prolongamos  no exame para aferir a possibilidade  da real  predisposição à  síncope   , o que poderia sinalizar tratarem-se de casos patológicos   . É razoável admitir-se , no entanto , que   exista  um magnitude  limítrofe  de  abaulamento parietal  basal a partir da qual se  enveredaria  para o  âmbito do anormal .  </p>
<p>O que apresentamos  aqui como  hipótese  terá que ser  testada , dentre outros modos,  por exame  transesofágico  realizado  em  mesa basculante  ( tilt test) . Se confirmado , o achado terá implicações  não só  no estudo das síncopes , como no de valvopatias diversas  ( especialmente o   PVM )  &#8211; dentre outros  .</p>
<p>Palavras chave:  ecocardiografia-dinâmica mitral – dinâmica ventricular esquerda  posição em pé .</p>
<p>Fig 1</p>
<p>Fig 1</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vivarelli.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vivarelli.wordpress.com/10/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=10&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/trabalho-recusado-pleos-arquivos-brasileiros-de-cardiologia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="http://1.gravatar.com/avatar/b05c9f74c08fa1b5cd38c53992a5a576?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">vivarelli</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>DOUTOR CARAMBOLA</title>
		<link>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/doutor-carambola/</link>
		<comments>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/doutor-carambola/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 28 Nov 2009 13:37:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>vivarelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[carambola]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://vivarelli.wordpress.com/?p=8</guid>
		<description><![CDATA[ DOUTOR CARAMBOLA Jorge andava  quase morto. No últimos 15 dias dera plantões, dia sim- dia não , na ante-sala do inferno , o Pronto socorro do Hospital das Clínicas. Só ressuscitaria depois de uns três dias de sono – os três primeiros de suas  primeiras férias de residente  . Eram cinco da matina . Último [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=8&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> DOUTOR CARAMBOLA</strong></p>
<p>Jorge andava  quase morto. No últimos 15 dias dera plantões, dia sim- dia não , na ante-sala do inferno , o Pronto socorro do Hospital das Clínicas. Só ressuscitaria depois de uns três dias de sono – os três primeiros de suas  primeiras férias de residente  .</p>
<p>Eram cinco da matina . Último dia de pedreira ! Faltavam apenas cento e vinte minutinhos para passar o abacaxi  e tudo estava calmo . Resolver tirar uma soneca , pois mesmo quinze minutos  de desmaio  contam muito  numa situação como a dele .</p>
<p>Sete minutos e meio – foi o que durou . A enfermeira Juventina  &#8211; mais conhecida como A Sádica -  enfiou a mão  ossuda  pela janelinha  da porta do quarto e disparou a campainha – aquela mesma de balcão de hotel .</p>
<p> - Dr Jorge , por favor , um  convulsivo  idoso . E não sai nem com Dienpax! – gritou  lá de fora .Dr Paulo falou pro senhor  assumir o caso que ele chega em seguida  </p>
<p>E lá foi ele – o azaradão</p>
<p>- Não podia ser uma urticária , uma angina , uma cólica renal ! Tinha que ser um epilético ! – disse resmungando em voz baixa</p>
<p>Encontrou um  velhinho de uns 80 e lá vai fumaça , chacoalhando muito e com o pijama todo sujo de vômito. Mau sinal , pois  ele devia ter aspirado aquela gororoba. Por isso estava azulzinho , azulzinho , com pouca oxigenação .</p>
<p>Resumo da ópera: na seqüência desenvolveu-se uma grave arritmia e não houve  massagem cardíaca, choques elétricos, entubação, adrelina e quejandos  que  revertesse o grave quadro clínico .</p>
<p>O R-2 Paulo , que – como reza a tradição &#8211; sempre tem que pisar na cabeça do R-1 , só ficou no comando .</p>
<p>-   Jorge :  dá   seis   compressões.   Pára ! Juventina : agora injeta ; Jorge choca com 200 ( entenda pobre mortal  : um choque com o desfibrilador com 200 watts de potência)</p>
<p>Por uma hora e meia, Jorge alternou-se entre massagista, eletricista e até encanador  (tentou, por várias vezes,  enfiar um tubo de borracha de ¼ de polegada na traquéia  de Seo Pedro – esse era seu nome ) .</p>
<p>Diante da violência das convulsões – que não paravam &#8211; o novato R-1 sugeriu a <em>Deus</em> se não seria o caso de usar curare – uma droga perigosa usualmente utilizada por anestesistas   para  amolecer os músculos de pacientes que  vão ser operados  .</p>
<p>-Cê ta maluco ! Eu não sou índio da amazônia – esse foi o jeito do Dr Paulo- sabe –tudo  disfarçar sua ignorância.</p>
<p>Mais alguns minutos e o chefe R-2 julgou tratar-se de caso irreversível  :  ordenou que as manobras fossem interrompidas . Seo Pedro foi encontrar-se como o seu xará.</p>
<p>- Legal ! – provocou o<em>  superior</em> – Aposto 50 paus que fraturou no mínimo 10 costelas com suas <em>compressõezinhas</em>  -  De fato, ele era um jovem  parrudo e, quando subia em cima de um <em>parado,  </em>Jorge deixava marcas indeléveis</p>
<p>-   Bem, vou fazer o pedido da  necrópsia. Você fala com a família  para  a autorização. Se não derem , fazemos assim mesmo.</p>
<p>Dr Paulo   era um gozador e um folgado e sempre deixava a parte mais difícil para os calouros .</p>
<p>- Se o patologista  confirmar as quebraduras, você me deve  um almoço, ouviu  &#8230;Tenente  .Jorge.</p>
<p>Jorge não entendeu  a brincadeira e, sem abrir a boca , só gesticulou  o porquê daquela  observação. Paulo apontou para o bolso da camisa  suada de seu subalterno física e mentalmente esgotado: próximo à  borda superior, duas estrelas amarelinhas dispostas lado a lado. Juventina pegou uma delas com a mão enluvada, ajeitou os óculos e diagnosticou: &#8211; É carambola ! O <em>Seo </em>Pedro aqui  comeu carambola !</p>
<p>Todo mundo gargalhou e foi só aí que o <em>estúpido</em> R-1 percebeu  que  suas calça e camisa  estavam  salpicadas de  vômito. Foi assim mesmo à  procura dos familiares  do falecido.</p>
<p>- Por favor : algum parente  do senhor Pedro, o paciente  que veio do asilo !</p>
<p>A sabichona  Juventina  informou :</p>
<p>- Pergunta pra aquele japonês , ali . Imagina  como ele se chama : Abelardo . Abelardo !</p>
<p>- Ele <em>non</em> tem família , seu doutor – respondeu. Acho que  não tem <em>poblema  </em>a autopsia , non .</p>
<p>Abelardo  era um  oriental  de uns 50 anos , musculoso , vestindo branco impecável  e apenas com um discreto sotaque .</p>
<p>E foram adiante .Menos de 3 horas depois, <em>Seo </em>Pedro já se encontrava inteiramente retalhado  na sala de autopsia do Dr Lopes, o patologista .</p>
<p>Jorge estava dando um tempo  na lanchonete do hospital , depois de um banho rápido  e uma troca de roupa .</p>
<p>- Tenente! Hei Tenente ! De longe gritou o Dr Purgante  vindo em direção ao seu  capacho .- Vamos logo que a carnificina está quase no fim . Você não acha que eu esqueci de nossa aposta , não é mesmo ?</p>
<p>E pegando-o pelo braço , levou Jorge ainda segurando um pedaço de pão  molhado de café .</p>
<p>Professor Lopes respondia às perguntas do  R-2 que afetava estar muito interessado nos achados .</p>
<p>- Nada  importante . Veja aqui ( mostrou as várias fatias do miolo recém fatiado ) :  não há tumor  nem qualquer sinal de isquemia cerebral. Apenas esta atrofia típica de  Alzheimer avançado &#8211; informou Dr Lopes.</p>
<p>- Ah , sim .E&#8230; quantas costelas fraturadas , professor ? O R-1 , LOGO ALI , teve alguma dificuldade na massagem cardíaca , o senhor sabe como é que é !</p>
<p>- Eu percebi : doze ; metade em cada hemi – tórax</p>
<p>Dr Paulo, ocultando-se atrás do professor, voltou-se para Jorge fazendo um cinco com os dedos estendidos da mão direita  e uma rosquinha maliciosa com a outra .</p>
<p>– É o meu 13º. caso neste últimos cinco  anos : pacientes com Alzheimer que morrem por convulsão irreversível sem nenhuma razão evidente. Nenhuma droga suspeita , nenhum tóxico . Estou pensando em publicar  estes achados numa boa revista de  Neurologia . O Senhor não se interessaria em participar  deste trabalho Dr Paulo .</p>
<p>- Ah,  Neurologia não é o meu forte , professor . Mas o  Dr Jorge  está muito interessado no caso. Foi ele que insistiu na necrópsia !</p>
<p>O residente  sem –vivo  olhou para cima , coçou  a bochecha   e contou até 10 . Mas desta vez aceitou a tarefa não por simples sujeição , mas por que,na verdade  , Jorge adorava pesquisas.</p>
<p>Três dias depois- dormindo 12 horas por dia -  ele  procurou Dr Lopes e começou a coleta de dados retirados dos laudos das autopsias.</p>
<p>Perfeccionista, achou que deveria complementar as informações que dispunha com  as anotações das fichas clínicas privadas  das 5 instituições de idosos de onde vieram os treze pacientes; visitou todas elas e xerografou tudo e mais um pouco  . Logo a  mesa de trabalho de sua modesta casa  ficou abarrotada de papeis.</p>
<p>A moradia, de três cômodos era, de fato, de uma pobreza  beneditina  e isto por dois motivos : 1º. falta <em>daquilo</em> ;  2º. dois  roubos seguidos, num só ano , tinham dado cabo da TV, do computador, do micro –ondas  e até de amostras grátis de anti –hipertensivo! Da última vez , o  gatuno ousado  invadiu a residência com Jorge dormindo pesadamente  dentro dela . Ele até tentou  correr atrás  do  meliante , mas uns tiros  pro alto dissuadiram-no   da perseguição .</p>
<p>Para tentar afastar novas investidas, Jorge até colocara  um esqueleto de plástico, de seus  tempos de  estudante,  pendurado  bem  em frente à janela : ele o vestira  com  aquelas roupas usadas por cirurgiões, com toca e máscara.  Claro, tudo muito inútil, mas a  <em>brincadeirinha </em>  dava  um certo <em>charme médico </em>àquele cubículo , especialmente nas happy hours que ousava lá proporcionar com seus amigos e ainda   belas enfermeiras , fisioterapeutas  e adjacências</p>
<p>Magda , a diarista, mantinha tudo limpíssimo . No início daquela semana, ela ligou avisando que  não viria.</p>
<p>- <em>Descurpa</em> , mas acabei de pegar meu avô aqui  no asilo municipal da minha cidade  e leva-lo   para o hospital .</p>
<p>E contou um caso semelhante àqueles que estava estudando: demência senil com convulsões. A tal cidade ficava a 25 quilômetros mas  tudo  vale a pena quando a recompensa não é pequena . Jorge chegou a tempo de ver outra autópsia : o idoso morrera  e nada  do que fora achado  explicava  as convulsões  .</p>
<p>No dia seguinte, voltou a analisar todos os documentos.</p>
<p>Magda resolveu aparecer para a limpeza- da casa e de sua alma enlutada . Para segurar as intermináveis observações da diarista, Jorge passou  a usar a técnica dos <em>Ãhs, Hums, É mesmo ! . </em>Só assim  o  R-1 pode  voar para a estratosfera .<em></em></p>
<p>- Vovô Leopoldino sempre teve uma saúde de ferro; só se queixava de dor no <em>nervo asiático</em>; <em>num </em>controlava nem mais o xixi e o coco; os enfermeiros dele eram muito bons; um até trouxe carambolas para  fazer um suco prá ele; não se vê mais isso&#8230;.</p>
<p>A palavra <em>carambola</em>  fez Jorge aterrisar imediatamente .</p>
<p>- O que foi que você disse , Magda ?</p>
<p>- Um dia antes de vovô ir pro hospital, um enfermeiro do Lar  fez suco de carambolas só</p>
<p>prá ele. Era um japonês  muito simpático .</p>
<p>-  Carambola? Japonês ? Será um tal de Abelardo?</p>
<p>- Ué , o senhor conhece ele  lá  do Asilo  Municipal ?</p>
<p>Sem responder, Jorge decolou, de novo, para o espaço sideral. Depois de alguns minutos, de repente, deu um murro na mesa assustando Magda. Ele acabou  encontrando  anotações de Abelardo em todos os prontuários dos  falecidos.</p>
<p>Na  mesma tarde resolveu voltar aos asilos .</p>
<p>- Ah , eu me lembro dele sim ! Ele ficou pouco tempo, uns dois meses ! Acho que foi o primeiro japonês que encontrei chamado Abelardo – falou o senhor Cabral, o idoso  porteiro.- Na verdade ele era chinês, de Taiwan, e  quando se naturalizou  brasileiro  pegou esse nome da TV , do Chacrinha. Lembra dele? O Abelardo era muito bom ! Uma vez até brinquei com ele:” Você vai matar seu João com tanto suco de carambola!” Ele  trouxe da sua casa dele um sacão cheio e eu até levei algumas prá minha patroa .</p>
<p>Jorge  vibrou  com a revelação. Então , ele  cristalizou sua  tese <em>carambolesca</em> : estava diante de um  <em>serial killer ! </em>A fruta  , de algum jeito, impediria a identificação do veneno nos exames toxicológicos!</p>
<p>Resolveu continuar as visitas, sempre pedindo aos entrevistados a <em>máxima discrição</em>. Mas em nenhum outro lugar encontrou quem o tivesse visto com carambolas  .</p>
<p>- E claro ! Ele não faz isto com todos os internados e nem de modo ostensivo –raciocinou o esquizofrênico residente .</p>
<p>Às noites , surfava na Internet que acabara de re- instalar em sua casa ,  procurando algo  sobre toxicologia  e carambola. Mas ,nada de mais  !</p>
<p><em> </em></p>
<p><em> Tawan-  o maior produtor  mundial de carambolas</em>&#8230;.”</p>
<p>-Eu não falei , não falei !– gritou sozinho enrolado em um cobertor  em sua sala  .</p>
<p> Um dia, lá pela uma da madrugada, pingando  de sono, resolveu  ir dormir. Às três, um tilintar semelhante àqueles d´A Sádica  fez Jorge pular da cama .Demorou alguns segundos para entender que não estava de plantão. </p>
<p>O ruído vinha da  porta da cozinha, que estava sendo forçada  . Acendeu a luz. . A idéia  imediata que lhe ocorreu  era à da volta do assaltante  hipertenso : ele viera em busca do seu computador recém instalado !</p>
<p>Procurou armar-se: olhou em torno, mas nada! Bateu os olhos numas ampolas de curare, aquele paralisante que quase  usou no caso do Seo Pedro. E foi  aí que  entrou em ação a mente ágil de plantonista de Pronto Socorro: pegou uma seringa e carrego-a. Segurando-a como uma faca- o dedão no êmbolo-  correu para traz da porta  que estava sendo forçada e tentou assustar  o meliante :</p>
<p>- Quem é que taí ; vai embora se não eu atiro !</p>
<p>Silêncio de 5 segundos &#8211; Acho que se foi – pensou; mas um violento pontapé arrombou  a portinha. O cara entrou  atirando. Jorge correu para a sala e deitou  no chão – tudo no escuro. O bandido foi atrás e ao ver o esqueleto vestido balançando em seu suporte , descarregou a arma .Quando ouviu que os estampidos foram substituídos por clicks por falta de munição, Jorge resolveu  agir: pulou prá cima, e deu-lhe uma gravata com o braço esquerdo, injetando o curare bem no ombro direito do invasor. O <em>cabra </em>respondeu com uma cotovelada no peito de Jorge, o que o fez desengatar e fugir para a cozinha Percebeu , então, que o sujeito tirara algo do bolso  e vinha atrás dele . Acendeu a luz . O mascarado  empunhava um enorme canivete  e, cauteloso, avançava  e lentamente . </p>
<p>Mas o indivíduo  foi baixando  a arma , pois o braço  começara a amolecer ; ele tentava , em vão, levantá-lo  com o esquerdo; em seguida , foi a vez da cabeça pender para o lado esquerdo. Aí  Jorge  deu um grande suspiro de alívio: o curare estava em  plena ação .</p>
<p>- Oh, seu bandido : é melhor  tu sentares aí quietinho, porque tu  vais começar a parar de respirar logo, logo. E ainda bem que eu não vou precisar fazer massagem  cardíaca , porque ,aí,   tu ias ver o que é costela quebrada !</p>
<p>Até a chegada da polícia e da ambulância, por cerca de  trinta minutos , Jorge viu-se obrigado a fazer respiração boca-à-boca  no seu quase assassino, o Abelardo – que permanecia completamente acordado. O residente, com certo nojo, colocou uma grande gaze sobre os lábios do oriental paralisado, que ouvia as repreensões de Jorge sem qualquer  reação.</p>
<p>Prá encurtar a história: Jorge acabou abandonando a residência médica e foi para uma pós-graduação em Farmacologia; o enfermeiro  está preso até hoje sob a acusação de tentativa de assassinato; e a promotoria aguarda Jorge terminar sua tese <strong><em>Sobre uma nova neurotoxina extraída da Averrhoa carambola</em></strong>  prá   aplicar <em>uma perpétua </em>no chinês  pelos 13 assassinatos de idosos .</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vivarelli.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vivarelli.wordpress.com/8/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=8&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/28/doutor-carambola/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="http://1.gravatar.com/avatar/b05c9f74c08fa1b5cd38c53992a5a576?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">vivarelli</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>O lobisomen de Tambaú</title>
		<link>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/25/o-lobisomen-de-tambau/</link>
		<comments>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/25/o-lobisomen-de-tambau/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2009 01:01:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>vivarelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tambaú - padre Donizetti]]></category>
		<category><![CDATA[conto paulista]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://vivarelli.wordpress.com/?p=3</guid>
		<description><![CDATA[O LOBISOMEN DE THAMBAÚ Os irmão Bento, Dionísio e Juvenal , resolveram  grilar uns três alqueires  em torno da estação abandonada da Mogiana, em Tambaú , lá no lugar conhecido como  Cafundão. Um areião só, solo ruim, ruim, que ninguém queria, nem prá lavoura, nem  prá  boi. Nos últimos 80 anos foi só reclamado, mesmo, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=3&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O LOBISOMEN DE THAMBAÚ</p>
<p>Os irmão Bento, Dionísio e Juvenal , resolveram  grilar uns três alqueires  em torno da estação abandonada da Mogiana, em Tambaú , lá no lugar conhecido como  Cafundão. Um areião só, solo ruim, ruim, que ninguém queria, nem prá lavoura, nem  prá  boi. Nos últimos 80 anos foi só reclamado, mesmo, pela vegetação teimosa do cerrado e por  uma  rica fauna : veados, jaguatiricas,siriemas, lobos e – dizia-se até &#8230;.onças pardas.</p>
<p>Há já alguns meses, com algumas galinhas, uns pés de milho e de mandioca, dois  porquinhos  e um restinho das economias, os dois  iam tocando seus  dias. As noites, quem tocava mesmo, era a pinga: pinga pra distrair ( não havia energia elétrica) , pro frio, pinga pra dar coragem e afastar o medo dos uivos de lobo  !  </p>
<p>Estes bisnetos de escravos gostavam de perambular e foi assim, que um dia, toparam  com um cemitério abandonado, todo cercado por vegetação fechada .- ¨Cruz credo , t`esconjuro” ! – cairam fora , rapidinho. </p>
<p> Mas, pouco o pouco , o medo foi sumindo .Começaram a <em>caraminholar</em>  quem seriam  os defuntos daqueles ¨ túmalos¨ &#8211; como eles os chamavam. Numa manhã de sol , resolveram  desbravar um deles :¨ Deolinda de Freitas -  estrelinha 1842 – cruzinha 1882 “. O caixão e o cadáver reduziram-se a um granulado marrom escuro, só sendo bem visíveis os cabelos longos de mulher. De repente , no meio daquele pó  asqueroso,  algo metálico, amarelado : um crucifixo com uma corrente, cor de ouro, duro como ouro,  brilhante com ouro . Era ouro!</p>
<p>O relojoeiro da cidade pagou-lhes duzentas pratas , sem fazer  muitas perguntas sobre a proveniência da mercadoria .</p>
<p>Pronto ! Era só o que faltava  para que o  tisnado, o  beiçudo , o tinhoso,   ou , como  é   mais conhecido, o capeta  pusesse pra funcionar as oficinas das cabeças vazias dos Bento .</p>
<p> Eles curtiram muito o dinheirinho extra: melhoraram a dispensa da cozinha , compraram bastante milho pras galinhas e pros porcos , varas pra pescar e , naturalmente , muito combustível –  querosene  e cachaça .   </p>
<p>Depois de três dias de <em>descanso</em>, resolveram que iriam  atacar um <em>tumalão</em> – o maior de todos . Mas  resolveram adotar um protocolo civilizado:  não iriam quebrar nada e  colocariam tudo no seu lugar .</p>
<p>Chegaram ao  local  meio tarde , pois a noite fria da véspera levaram  os irmãos  a usarem mais combustível que o usual . Já passava da uma da tarde quando começaram a desmontar, com cuidado, a pequena moradia de dona Izolete Mathias Aranha , <em>¨ nascida em 18 de fevereiro de 1815 ; fallecida  em 13 de Setembro de 1894 ¨ </em>Às 5 e pouco chegaram ao caixão que , surpreendentemente , mostrava-se bem conservado.  O sol já declinava e a sombra de umas paineiras centenárias  deixavam  o local ainda  mais escuro . Até exporem completamente  a  residência  de Dona Izolete  foi mais uma hora.</p>
<p>- Vamo imbora , Dionízio . Tá ficando muito iscuro .Amanhã nois vorta!</p>
<p> O uivo distante de um  lobo fez Juvenal tomar a decisão diante da teimosia do irmão  :</p>
<p>- Então você fica , que eu  vou pra casa !    </p>
<p>Dionízio  ficou. O ataúde não abria e ele acabou esquecendo da promessa : com uma pedra  arrebentou-o em uma extremidade . Foi aí que pode ver um par de botinas ,  as canelas e as barras das calças &#8230; de  um homem .</p>
<p>- Uai ! Qui  Dona Izolete  mai  machona  essa !</p>
<p> O corpo ainda tinha volume ,  não havia se desintegrado como o outro e  estava bem coberto pelos panos de um terno antigo .  Foi  ,então, tirando  a  tampa  aos pedaços  em direção à cabeça . Quando encontrou as mãos juntas sobre o peito  ainda recobertas de um carne acinzentada ,  recuou  assustado .  </p>
<p>- Não tem aliança ,  anel , nada ! Que  porcaria  ! – resmungou</p>
<p>Com raiva , arrancou  o resto  da   cobertura  da urna . Dionísio foi tomado instantaneamente por um intenso pânico: o defunto tinha a cabeça de um cachorro peludo  com a boca entre aberta e  dentuça à mostra !</p>
<p>Saiu correndo às cegas , se arranhando todo ao  bater nos galhos dos  tantos arbustos   que  cercavam o local .   </p>
<p>Juvenal  , já em sua  casa , de repente ,  começou a ouvir  os gritos  do irmão . Tomou um trago de coragem  foi  atrás dele  com uma  tocha   de querosene   e  um facão , gritando  feito doido</p>
<p>- Dionísio ! Dionísio ! Onde ocê tá ! Já to indo !  .</p>
<p>Quando  chegou  viu seu irmão agonizando,  caído , com  o pescoço  todo coberto de sangue .</p>
<p>-O lobisome ! – foi a última  e aterradora  sentença que Juvenal ouviu   antes do irmão  perder os sentidos .  </p>
<p>Colocou-o  em suas costas  e  levou-o  com dificuldade para o Pronto Socorro . Morreu  com  um enorme rasco  no pescoço .</p>
<p>O caso  foi parar  na delegacia  e o corpo, no IML de Casa Branca . Do legista veio  a causa  da morte : ¨ choque  hipovolemico por  lesão perfuro cortante  da face lateral esquerda do  pescoço com secção da jugular  e da carótida comum¨ .</p>
<p>Juvenal foi indiciado por  vilipendio de cadáveres.</p>
<p>Antes do meio dia do dia seguinte, em alguns pontos tradicionais da cidade, já se começava a falar  de um lobisomen  :</p>
<p>O repórter  Jaime , do jornal  da cidade, O Tambaú ,  abordou  o legista  Dr  Avancini :</p>
<p>- Bem , além de muitas escoriações no rosto e braços, a vítima tem dois cortes paralelos   um mais profundo – que cortou a carótida-  e outro mais superficial.  Eles  poderiam ter sido produzidas por qualquer instrumento  como  um garfo com  pontas afiadas .</p>
<p>- Poderia ser a  garra  de um bicho ,  um lobo , por exemplo ? O legista  deu  uma risadinha  e virou as costas ,deixando  o repórter gozador  </p>
<p> No dia seguinte , a cidade  fervia  com    a manchete :</p>
<p><em>LAVRADOR MORTO EM CIRCUNSTÂNCIAS ESTRANHAS NO BAIRRO CAFUNDÃO </em></p>
<p><em>Irmão da vítima  fala em “ ataque de lobisomen “ </em></p>
<p>Dr Wagner , o delegado, resolveu colocar este caso como prioridade . Quando chegou ao local logo pela manhã  com  três policiais e  um investigador  , encontrou  Jaime  tirando  fotos, freneticamente, de todos os ângulos do túmulo  .Ele deu no pé  na mesma hora , pois temia que o delegado iria tentar tomar-lhe a câmera.    </p>
<p>- Ah,  isso aqui vai  dar o que falar !- exclamou  Wagner  ao  compreender   a causa da agitação do repórter .</p>
<p> Na mesma hora , mandou  cercar  as terras mogianas com o maior número de policiais que dispunha . Pediu  imediatos reforços para a Seccional de Casa Branca  e avisou seu amigo legista. Em seguida  transferiu  a elucidação da morte do Dionízio para o subdelegado. Ele iria tratar do que realmente gostava  desde os tempos da academia : um  típico  caso de Antropologia Forense – uma ciência  que  mistura   a habilidade investigativa   de um policial  , com  bons conhecimentos de História  e  Biologia .</p>
<p>Wagner  era assinante da revista da American Society of Physical Antropologists e tinha especial interesse em  estudo de  cadáveres conservados  – fossem as  múmias egípcias ou  as  peruanas,  os corpos incorruptos de santos da Igreja ou  os corpos congelados no gelo da Sibéria há milhares de anos. Vindo da cidade de São Paulo, estava esperando  mostrar seus conhecimentos na exumação do Padre Donizete , programada  para daí uns dois ou três anos . Mas o premio chegou antes !1</p>
<p>- Carolina , esta caso fantástico  caiu  no meu colo e  eu vou  embalar esta criança .Vou precisar de sua ajuda , ta bom ?</p>
<p>Carolina, sua esposa,  era professora de História com tese de mestrado sobre Lampião e sua gangue. </p>
<p>Aprovação geral e irrestrita da companheira , Wagner resolveu por ,ele mesmo, a mão na massa  :  mandou buscar um macacão de jardineiro , calçou luvas,  botas e  entrou no túmulo. Com  seus subordinados  entre assustados e  enojados conseguiu esticar  uma  lona  sob  o caixão  para levantá-lo  sem  riscos  de partir .</p>
<p>Depois de  retirar o  corpo de delito, no final do dia ,  veio a pergunta natural  :</p>
<p>- E pra onde vamos levá-lo   , Doutor  ? – perguntou o investigador Lazinho.</p>
<p>-  Para o meu sítio &#8230; e ninguém precisa saber disto , certo ? Muito menos repórteres!</p>
<p>Os   auxiliares  se entreolharam espantados .</p>
<p>Foi atrás de todos os abajures da casa  e mais alguns  bicos de luz , pois  ainda naquela mesma noite  queria  estudar  aquele caso bizarro.</p>
<p>Logo após o banho e do  jantar rápido, preparado pela não menos ansiosa assistente de Frankstein, o casal  foi pra sala  da TV , para um cafezinho . Deu para pegar o finzinho do Jornal Nacional</p>
<p>- <em>E na cidade de Tambaú, no interior de S.Paulo,   uma estranha morte atribuída  a um lobisomen</em>&#8230;  –  Pouco mais de 24  horas  do   acidente , Willlian Bonner   mostrava  a todo o país as fotos  tiradas pelo repórter Jaime .       </p>
<p> - Desgraçado ! Deve ter vendido as fotografias por um dinheirão ! -  adivinhou o delegado</p>
<p>-  <em>As autoridades locais  afirmaram que  terão o caso  esclarecido  em breve</em> &#8211;  e olhando para a Fátima Bernardes  falou com um sorrisinho debochado : &#8211; <em>Tomara !</em></p>
<p><em>Boa noite</em></p>
<p>O  delegado  pressentiu a pressão  que  iria  sofrer até o  esclarecimento  dos fatos .  E lá foram eles para a sua sobremesa mumificada .</p>
<p>Começaram pela cabeça : era de um cachorro  de uma raça difícil de se identificar, talvez  um vira –lata qualquer . Destacou-se facilmente  do pescoço decapitado, Carolina  fotografava tudo  .</p>
<p>Em seguida foram às roupas .  No bolso esquerdo do paletó  , uma chave  antiga  com a iniciais  VSS  e nada mais – bolsos vazios .</p>
<p>Passaram metade da madrugada despindo o corpo e outra metade  examinando as carnes  acinzentadas  . Nenhum sinal  tiro , facada ou  trauma evidente</p>
<p>- É um tipo estranho de mumificação . Amanhã cedo, antes de ir para a delegacia ,   volto lá para pegar uma amostra do solo – disse Wagner à esposa  </p>
<p>Estava amanhecendo  quando  o delegado  ligou para seu principal investigador:</p>
<p>- Lazinho , vá até  O Thambaú e peça  as edições  que cubram   os anos  de 1890  a 1895   quero saber as ocorrências policiais  daquele período- quem morreu, quem matou , quem sumiu,  aqui e na região . Fala  pro  Paulo  procurar no arquivo morto da Comarca   alguma ocorrência suspeita desta ocasião : fiquem atentos para qualquer sujeito  com as iniciais V.S.S em seu nome . – Valter,Vitor , Valdir qualquer coisa, entendeu ?  </p>
<p>Minha mulher  vai fazer a pesquisa genealógica da  D. Izolete , do que morreu , de parentes  de ambos  ainda vivos, etecetera , etecetera   .  </p>
<p>Na delegacia ,com habilidade, se livrou  dos repórteres desmistificando de saída  a tese do lobisomen  e prometeu  uma nova  coletiva  em uma semana  .</p>
<p>Voltando ao cemitério , vestiu-se  novamente <em>a  la jardineiro</em>  e entrou na cova   para recolher  um pouco do solo. De repente, encontrou  <em>novas e importantes evidencias</em> – que decidiu  manter em sigilo .</p>
<p>Uma semana mais tarde , trabalhando noite e dia  , com entusiasmo  de  jovens detetives  o casal convocou    a imprensa  para  anunciar o esclarecimento do caso .</p>
<p>- Bem , senhores , é sempre uma satisfação para  nós , policiais, termos dois crimes   esclarecido quase ao mesmo tempo, especialmente em se tratando de duas mortes bizarras: a de um lavrador degolado  próximo a um cemitério e  a  de um senhor  assassinado  há mais de 100 anos , cuja  cabeça foi substituída pela de um cão . Vamos começar pelo caso mais esdrúxulo :  o da  múmia decapitada .Lazinho,diminua as luzes e comece a projeção :</p>
<p>O corpo deste indivíduo que , como podemos ver, veste-se com  um modelo  típico do final do século XIX,  foi , inadvertidamente , mumificado por ação de arsênico e , logo adiante , revelaremos como chegamos a esta causa mortis – aliás , confirmada  hoje pela manhã  pelo Departamento de Toxicologia da Academia de Policia Civil de São Paulo. Ele  foi  envenenado  por   uma dose muito alta deste  veneno que ,sendo  um potente  bactericida, impediu a putrefação do cadáver   . </p>
<p>- Próxima imagem : No túmulo de D. Izolete, sob o caixão com a múmia , em contato direto com o solo,  encontramos  estes pedaços de ossos humanos  e de cabelo –  vejam , cabelos longos de mulher &#8211;  que correspondem aos  restos mortais da defunta. Com esta senhora os processos bioquímicos do apodrecimento dos tecidos  ocorreram normalmente  porque  seu corpo não esteve sob a ação química do arsênico.</p>
<p>-  Próxima: aqui a sua aliança encontrada em seus despojos  com a inscrição Bernardo / Izolete 1857. Esta senhora morreu viúva  do Sr Bernardo,  sem filhos , em idade avançada e seu túmulo nunca recebeu o corpo de qualquer descendente. Morreu devido a uma pneumonia fulminante , segundo consta em seu atestado de óbito e no seu obituário publicado no jornal da época.  Verificamos  que ela não tinha qualquer parentesco e , provavelmente ,  durante sua vida , nem conheceu  a vítima  decapitada – cuja identidade  apresentaremos   logo mais .</p>
<p>Os senhores podem estar pensando porque a vítima  foi parar no túmulo de alguém com quem em vida não manteve qualquer relação pessoal . Acreditamos que  o assassino, depois do  envenenamento, simplesmente quis esconder o corpo em um local onde ninguém  pensaria  em  procurar. E o cemitério  pareceu àquele sagaz assassino  o lugar perfeito. O criminoso deve ter escolhido a cova de D Izolete apenas porque ela estava  recém escavada ,  ainda sem  o túmulo.</p>
<p>Vocês devem estar ansiosos para saber , afinal.  a quem pertenceu este corpo  decapitado  e mumificado ? Procurando&#8230;</p>
<p>- Desculpa interromper,Dr Wagner  – interveio um reporte apressadinho – mas o cão também estava mumificado , certo ? Ele também  foi envenenado por arsênico ?</p>
<p>- Sim, mas por pessoas diferentes ! Agüenta um pouco  que eu chego lá .</p>
<p>- Descobrimos, procurando entre as notícias policiais daquela época em  nosso jornal O Thambaú , que um tal Sr Armando Sales  Peixoto , morador na cidade de São Simão, há cerca de 50 Km daqui , desaparecera de sua residência ; aliás , ele jamais foi encontrado  Mais adiante eu lhes explicarei porque o desaparecimento deste senhor em outra cidade  não foi apenas um fato de interesse local, mas foi  relatado em nosso semanário  e , na verdade , reportado  em vários jornais da região .</p>
<p>Estamos  quase 100% seguros que o corpo decapitado é o do sr.Peixoto</p>
<p>- Vocês acham que poderão estudar o seu DNA ? Quero dizer:  é possível  ter material genético intacto  nesta cadáver depois de tantos anos ? E uma última perguntinha – questionou alguém no fundo da sala escura- Este Senhor Peixoto tem familiares vivos para este tipo de identificação ?</p>
<p>- Sim ,o sr Peixoto tem bisnetos em nossa cidade  e já entramos em contato com alguns deles. O pessoal de S.Paulo acredita que esta análise vai ser possível . Mas como eu lhes mostrarei, temos  evidencias muito fortes a favor dessa nossa  quase certeza :</p>
<p>1º. O Sr Peixoto foi visto pela última vez no dia 11 de fevereiro de 1895 –apenas dois dias após a morte de D. Izolete ; 2º. encontramos num dos  bolsos de seu colete  uma pequena chave  de armário com as iniciais VSS.  No início pensávamos que estas eram às iniciais do seu nome. Mas um estudo mais detalhado do verso do corpo da chave  evidenciou, quase  totalmente apagado,  mais duas  iniciais : um  <em>P</em>- maiúsculo-  e um <em>r</em> – minúsculo. Aonde chegamos? PrVSS! Prefeitura da Vila de Simão. São Simão só passaria a município a partir de 1895 , um ano após  o  desaparecimento do sr. Armando  </p>
<p>A pergunta natural que se segue  :  como  tudo aconteceu ? Comecemos pelo fim:</p>
<p>O bandido deve ter  violado a  cova  ainda somente  recoberta por terra ,  jogado  o  corpo da idosa   dentro do mesmo buraco , cobrindo-a com o próprio caixão ; em seguida  colocou o cadáver  do   senhor  Peixoto    provavelmente já decapitado no interior do ataúde &#8211; e , então, nele acoplou a cabeça do  cão morto . Por que  isto ? Esse bandido que, como revelaremos ao final , era um  psicopata  sádico e cruel , queria concretizar seus planos  macabros  por  dupla motivação  : não só quis  vingar-se do Sr. Peixoto, matando-o, como também desejou  vilipendiar-lhe o  cadáver . Por isso , não jogou seu corpo  simplesmente  por sobre  o caixão de D. Izolete  mas escolheu uma opção que podemos chamar   inversa – despejou a última e acomodou o primeiro,   ridicularizando-o  .</p>
<p>-  Licença! – de novo o mesmo repórter chatinho – Porque não entender tudo isso como sendo a realização dos  desejos mórbidos de um maluco  que resolveu suicidar-se, envenenou também seu cão de  estimação e incumbiu  um segundo maluco – um seu empregado , por exemplo &#8211; para  fazer  o serviço?  </p>
<p>- Porque  este  vetusto cidadão  de 50 anos ,  era bem casado , pai de cinco filhos  e  desfrutava de boa condição social : foi  Secretário de Hygiene da cidade de S.Simão. Ele deixara  uma estranha carta  alegando  que iria acabar com a própria vida  em virtude  de um ¨amor não correspondido¨, sem sequer sugerir a quem se referia .  Por  4 edições  seguidas  do nosso semanário  O Thambaú   , esse foi o assunto – manchete , tal o escândalo e a estranheza  que  o caso  suscitou não só naquela cidade , como em todas as cidades da região .  </p>
<p>- Próxima imagem :encontramos estas fotos do Senhor Peixoto  na época da inauguração da Carrocinha  de São Simão :  sua altura e compleição batem com a dele .</p>
<p>Por fim as perguntas mais importantes que tivemos de responder : Qual a identidade do assassino cruel  e qual  a  motivação do crime . Vocês entenderão tudo num instante .  </p>
<p>Lendo vários números do jornal de S.Simão , O tamanduá, percebemos que o Sr.Peixoto fora o autor de um a iniciativa  polemica para livrar a vila  do grande  numero de cães  vira – latas que a infestava:  agentes da sua secretaria  espalharam bolas de carne com arsênico  o que levou  a  uma mortandade expressiva dos animais . ( Um disque disque geral  interrompeu brevemente a exposição do Dr. Poirè.)</p>
<p> A suspeita, então, já naquele tempo,  era de que se tratava de  uma vingança .Mas , estranhamente as autoridades preferiram  dar crédito ao teor suicida da carta , mesmo com o depoimento da esposa do sr. Peixoto  de  que havia   um forte suspeito – &#8230; <em>um conhecido  assassino de nossa região</em> &#8211; como consta nos autos – mas cujo nome , surpreendentemente não aparece- o escrivão não o transcreveu !   ( novo bochicho na platéia )</p>
<p>Também inusitada  foi  a determinação do senhor promotor de encerrar  o processo três meses após seu início.</p>
<p> Foi nesta parte que utilizamos os talentos de uma  professora de Historia em nossa cidade, que , por acaso,  é minha esposa  Carolina : Dioguinho , o famigerado Diogo da Rocha Figueira, era um matador frio e cruel que aterrorizou o oeste paulista  por mais de uma década , no final do século XIX . Todos o temiam  &#8211; os habitantes  da cidade , os fazendeiros, os políticos , a imprensa , e até mesmo &#8230; a polícia e o judiciário.</p>
<p>Matava por muito pouco ou quase nada , sem antes pré anunciar aos  quatro cantos  quem estava na sua mira  . Tinha uma marca registrada –dava-lhe prazer mutilar as pessoas : por mais de uma vez , retirara a face de suas vítimas à faca para atrapalhar sua  identificação ;  usualmente  arrancava-lhes  a orelha esquerda, guardando-as espetadas   de arame – como lembrança  !</p>
<p>Lemos no depoimento da sra. Peixoto que o <em>conhecido assassino da região</em>  propalara livremente  que  iria  se haver com o mandante  do envenenamento  de  sua cadelinha</p>
<p>A platéia  de repórteres  delirou com a  revelação .</p>
<p>- Bem não vou mais me alongar . Antes de responder às suas perguntas , permitam-me  somente  falar um pouco sobre a segunda morte, a do Dionízio, lembram-se ? – falou  rindo com ironia . Encontramos o que sobrou de uma ninhada de suçuaranas – onças pardas, hoje raras, em nossos cerrados , próximo ao local onde ele foi encontrado com um profundo corte no pescoço: o nosso legista confirmou que o rasgo de sua carótida   é compatível com aquele provocado pelas garras deste animal . </p>
<p>Poucos ficaram na sala  para perguntas  . A maioria dos repórteres correu  para os seus jornais.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vivarelli.wordpress.com/3/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vivarelli.wordpress.com/3/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vivarelli.wordpress.com&amp;blog=10663749&amp;post=3&amp;subd=vivarelli&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://vivarelli.wordpress.com/2009/11/25/o-lobisomen-de-tambau/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
	
		<media:content url="http://1.gravatar.com/avatar/b05c9f74c08fa1b5cd38c53992a5a576?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">vivarelli</media:title>
		</media:content>
	</item>
	</channel>
</rss>
